Eu era violeiro.
Todos sabiam que meu nome
era Rodríguez, pois era filho
De espanhóis, mas brasileiros
Ja eram zombeteiros desde
Aquela época colonial
E me apelidaram "Santiago".
Eu era violeiro.era Rodríguez, pois era filho
De espanhóis, mas brasileiros
Ja eram zombeteiros desde
Aquela época colonial
E me apelidaram "Santiago".
Gritavam "Arriba muchacho"
Toda vez que eu passava com
Minha viola flamenca.
Naquela noite Estava eu em Sabará,
Noite de Sábado, gente na rua.
Sentei-me em um banquinho
Ali diante da fonte do Kaquende,
Botei o chapéu no chão
e a viola no colo, então comecei
a tocar uma moda espanhola
Nos moldes de Andaluzia.
O povo logo começou a se
Reunir em uma roda,
Batiam palma no ritmo da
Música.
Brasileiro gosta de qualquer farra...
Em duas hora eu ja tinha
O chapéu cheio de moedas.
Ficou demasiado tarde,
O povo ja começava a ir se
Recolher, a rua ficando vazia.
Eu parei de tocar e já estava
Pronto para por a viola no saco
Quando uma moça se achegou.
Levantei a cabeça e fiquei pasmo,
Era uma moura, tinha a pele
Escura cor de canela, labios
Bem vermelhos e cabelos cheios,
Tinha as ancas largas e uns
Peitos de fazer inveja a
Qualquer uma,
E ela usava o espartilho tão
apertado que as melancias
Ja estavam querendo fugir
Por cima do decote.
Ela fez um biquinho de
Desconsolo e apertou
Os braços rente ao corpo
Fazendo os peitos salientarem
Ainda mais.
Botei a viola no colo,
Bati as unhas contra
as cordas e toquei uma
Bem agitada, uma flamenca.
A moça dançou, dançou como
eu jamais havia visto uma
Mulher dançar,
Ela girava fazendo a saia
Abrir no ar, movia os braços
De modo sinuoso,
Jogava os cabelos para lá
E para cá.
Era linda em demasia.
No final da música ela
Veio até mim, me agradeceu
E me mandou fechar
os olhos que me daria um
Presente.
Fechei, senti aquelas mãos
Macias elevarem meu queixo
E então os lábios dela tocarem
Os meus.
Fiquei ofegante, abri os olhos,
Queria ve-la, beija-la toda,
Beijaria aquela mulher dos
Pés a cabeça!
Mas quando abrir os olhos
Me vi sozinho.
Sim, estava sozinho
Na rua deserta.
Andei pela rua afim de entender
Para onde ela havia ido
E como tinha fugido tão rapido,
Mas não vi nem rastro de gente.
Enfiei a viola no saco
E fui para a estalagem onde
Ia pernoitar.
Chegando lá pedi a janta
E comi no balcão mesmo,
Quis fazer assim para poder
Assuntar com o estalajadeiro.
Contei a ele o que tinha acontecido,
Ele, um português bigodudo,
Veio e me cochichou
No pé do ouvido.
Não dei muito crédito
A esse papo de diabo,
Mas perguntei mais afim
De saber algo útil.
O português ficou
Parado me olhando feito
Um bobo, então lhe
Passei uma moeda por cima
Do balcão.
Não levei a sério,
O nome "Mulambo"
Não tinha nada haver,
A mulher que vi era belíssima
como uma princesa de Almorávida,
Não era nada mulambenta.
Os dias passaram, voltei
A fonte do Kaquende várias
noites mas ela nunca mais
apareceu.
Resolvi sair de Sabará.
Queria ver a moça de novo
então cometi a loucura de
Ir rumo ao Rio de Janeiro,
Foram três dias de viagem
montado no lombo de minha
Doce égua Rosalinda.
Chegando na capital fui
Logo fazer musica na praça
do Campo dos Ciganos.
Passei uma noite tocando lá,
Mas carioca é raça que tem
Escorpião no bolso, não
Ganhei quase nada.
Porém no fim da noite
Tive uma surpresa,
Vi a moça passar pela praça,
Atravessou bem na minha
Frente, ia rápido levando
Duas caixas de madeira nas mãos.
Corri atras dela.
Ela fez que não era com ela
E continuou andando.
Ela nem-te-ligo.
Ela parou e olhou para trás.
Estávamos nos dois agora
Em uma rua vazia.
Ela me olhou e sua expressão
ficou cheia de humor.
Me aproximei dela.
Ela pegou minha mão direita
E pôs bem em cima de um de
Seus seios.
Arregalei os olhos
E tirei a mão das partes dela
No momento que ela
Começou a gargalhar.
E ela deu as costas e se foi.
Fiquei atónito, a mulher
Era mesmo um Diabo.
Nas noites seguintes continuei
Tocando na praça,
Mesmo abalado por dentro
Eu tinha de continuar ganhando
a vida.
Sei lá quantas noites se passaram,
Mas em uma delas quando eu
Tocava uma balada aragonesa
Para alguns rapazes
Que haviam acabado
De sair de um bordel,
Fui surpreendido por eles
Aplaudindo com muita veemência,
E ninguém me aplaudia tanto,
Então olhei para o lado
e lá estava ela, Maria Mulambo,
E ela estava a requebrar os quadris
No ritmo da minha viola.
Olhou para mim e piscou,
Então mudei a musica para
Algo mais agitado,
Ela seguindo os acordes
Cantou junto, a voz
Era tão bela quanto ela.
"Me chamam de Rampeira,
A Rainha das Regateiras,
Pois quando vejo um rapaz
Meu bumbum faz
Tchic-tchic-bum!
Tchic-tchic-bum!
Se querem tirar a prova,
Pro meu decote olhem agora
Que meus nenêns fazem
Tchic-tchic-bum!
Tchic-tchic-bum!
As senhoritas de família
Dentro em Anaguas e crinolinas
Tem inveja deste
Tchic-tchic-bum!
Tchic-tchic-bum!
Tchic-tchic-bum!"
Todos riram e encheram
Meu chapéu com moedas.
Assim que eles foram embora
Trançando as pernas,
Ela também foi andando,
E eu rápido enfiei a viola
No saco e corri atras dela.
A alcancei em um beco.
Ela parou e ficou me olhando,
Então quando me aproximei
Ela me agarrou e me jogou
contra uma parede,
E ali me dei um beijo,
E um beijo tão intenso
que quando me soltou
eu estava branco, sem ar.
Nem tive tempo de dizer
Mais nada, ela desapareceu
bem diante de meus olhos.
Fiquei meses sem ver
Aquela beldade.
Uma noite quando cheguei
A meu quarto que alugava
em uma pensão no centro,
Antes de me deitar tive a louca
Ideia de chamar pelo nome
Dela, e sete vezes disse seu nome
Antes de pegar no sono.
De madrugada ela veio em
Meu quarto.
Eu não sei dizer se foi sonho
Ou se foi real,
Mas de manhã acordei
Quebrado de tão cansado,
A mulher era uma pimenta!
Mas eu estava gostando mesmo
Dela, mesmo ja sabendo que
Era alguma coisa do inferno ou
Sei-lá-o-quê fosse,
Eu realmente gostava dela.
Naquela noite a encontrei na praça
E perguntei:
Ela se riu faceira.
Ficamos assim,
Não sei dizer se éramos
apenas amigos ou se
Éramos amantes.
Eu a via as vezes,
E mesmo pedindo para que ela
Ficasse comigo mais tempo,
Ela não ficava, aparecia
quando queria e ia embora
Sem se despedir.
Se passou um ano, dois anos,
Três anos, dez anos.
De tanto viver em pensões
e estalagens eu decidi parar
De cantar nas ruas e abri
Um pensionato lá em Paranaguá.
Mulambo continuava vindo
Me ver.
O tempo danou a correr,
Eu fui envelhecendo,
Fui enrugando,
Minha beleza Latina desapareceu.
Me tornei um velho grisalho,
De dentes amarelos e
Corpo cansado,
Mas ela ainda vinha me ver.
Mulambo ainda era a
Mesma mulher linda,
Petrificada no alge da formosura,
E muitas vezes me senti
Envergonhado em recebe-la,
Eu sabia que não estava a altura,
Mas ela ainda assim vinha.
Então uma noite
Eu estava varrendo
O corredor do segundo andar
De minha pensão
Quando senti aquela presença.
Olhei para trás e vi ela,
Ela estava lá no primeiro
degrau da escada,
Vestida de branco
Como uma noiva,
E sorria para mim.
Sorri de volta, mas meu
Sorriso esmoreceu quando
Percebi que aquela mulher
era sim um espírito,
Era muito parecida com
Minha Mulambo,
Mas não era ela.
Ela veio se aproximando.
Então senti o impacto
e a dor lancinante no
Meu estômago.
A mulher estava com
O rosto a poucos centímetros
do meu, não entendi isso,
A segundos ele estava
Do outro lado do corredor,
Mas agora estava colada
Em mim.
Olhei para baixo,
Na mão dela havia um
Punhal, a lâmina fincada
na minha barriga.
Eu cai, bati no chão,
A poça de sangue começou
a se formar a minha volta.
A lâmina ainda fincada
Em minha barriga.
E de fato, nem um minuto
se passou e eu a vi,
Mulambo apareceu ao meu lado.
Se abaixou e tocou em
Meu ombro, mas se dirigiu
A mulher.
Mulambo agarrou o cabo
Do punhal e tentou puxar,
Remover, mas ele não se mexeu.
Mulambo olhou pra mim,
E pela primeira vez na vida
eu vi o rosto dela tomado
Por tristeza.
Ela então estendeu as duas
mãos diante do rosto
como quem segura uma bandeja,
Fez um biquinho e soprou
Sobre elas, uma nuvem de fumaça
Preta saiu de sua boca e tomou
Forma nas suas mãos, logo
Uma caixa de madeira
Se materializou ali.
A tal Sete Catacumbas
se abaixou ao nosso lado,
Pôs uma mão no cabo do
Punhal e outra na caixa
Que Mulambo segurava.
Mulambo suspirou.
E em um piscar de olhos
A mulher desapareceu,
Levou embora a caixa e
O punhal.
Mas eu estava ferido demais
Para resistir.
Mulambo segurou
A minha mão, começou a
Cantarolar algo,
Uma cantiga de ninar
Ou algo assim.
Então eu senti que devia
olhar para o teto, e ali no
Teto do corredor havia
Um tipo de buraco iluminado e
Do outro lado dele um lugar
Que parecia uma pintura
De tão bonito.
Um homem muito alto
E bem afeiçoado
Se encarapitou na borda,
Olhou para baixo e me
Encarando disse:
Ele estendeu a mão e
Misteriosamente eu alcancei
a mão dele mesmo ele
Estando longe.
Olhei para baixo
E vi meu corpo morto
Caido no chão e ao
Lado dele a minha amada
Que olhava pra cima
Com os olhos muito brilhantes.
Falei com Emanuel.
Olhei para o homem.
Olhei para baixo.
Ela forçou um sorriso,
Acho que queria me tranquilizar.
Então eu passei pelo buraco,
Fiquei olhando enquanto
Ele se fechava, nos separando.
Eu estou aqui em cima já faz
Mais de duzentos anos.
As pessoas que morrem e
Vem pra cá sempre me falam
Da minha Mulambo,
De que ela agora é bem famosa,
Que chamam ela de Pombagira,
Mesmo que eu não faça a menor
Ideia do que é isso, mas eles
Dizem que ela ajuda muita gente,
Que ainda é um bocado safada,
Mas que ainda é a mesma.
Eu lhes contei esta história
Neste momento em que estou
na beira do mesmo buraco
Pelo qual entrei neste lugar.
Eu já estou pronto pra cair
No mundo de vocês novamente,
E eu vou nascer criança
Neste velho mundo mais uma vez.
Meu último desejo antes
De pular é que ela ainda
Lembre de mim, que ela,
A minha Mulambo, me ache
Quando eu mais uma vez
For gente de carne e osso.
Felipe Caprini, Contos das Muitas Marias
Segunda Temporada — Conto 6
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