Pomba-Gira Menina das 7 Catatumba
Pomba-Gira Menina das 7 Catatumba
Era uma criança, filha de pais negros, que desde muito pequena conheceu o peso da vida dura. Não teve infância de brincadeiras nem de estudos — não sabia ler, nem escrever. Desde cedo, precisou trabalhar para ajudar os pais: cozinhava, lavava e passava roupa, cuidava da casa e de tudo o que fosse necessário. Era uma menina de uma beleza rara, encantadora, mas o brilho de seu rosto escondia uma tristeza que já nascia com ela.
Quando completou 12 anos, ainda quase uma criança, foi obrigada a se casar com um senhor muito mais velho, rico e de posição. Seus pais sentiam uma dor no peito, sabiam da desgraça que era entregar a filha daquela forma, mas naqueles tempos quem tinha dinheiro e poder mandava em tudo, e eles nada puderam fazer para impedir. No dia do casamento, todos perceberam: ela não sorriu nenhuma vez, seus olhos estavam secos e vazios, mas ninguém podia mudar o seu destino.
A lua de mel foi o início do seu sofrimento verdadeiro. Ela foi violentada, humilhada e tratada como propriedade. Tinha na nova casa tudo o que era considerado bom e de melhor qualidade, joias, roupas finas, fartura na mesa — mas nada disso trazia felicidade ou paz ao seu coração.
O tempo passou e ela descobriu que estava grávida. Naquele momento, o medo e o ódio cresceram dentro dela. Não queria carregar nem gerar a vida de quem lhe fazia tanto mal. Procurou então um veneno forte, extraído de peçonha de cobra, e misturou tudo na comida do marido. Ele comeu sem desconfiar de nada, saiu para o seu trabalho e, durante o dia, passou muito mal, morrendo antes de receber socorro. Todos que o conheciam pensaram que fora a idade avançada que o havia levado; ninguém jamais suspeitou da jovem viúva.
Quando lhe trouxeram a notícia da morte, ela fingiu um desespero e uma tristeza que não sentia. Ganhou toda a fortuna e a herança do marido, ficou riquíssima. Com todo aquele dinheiro, ajudou os seus pais, deu-lhes uma vida melhor, e abriu as mãos para ajudar a todos os pobres e necessitados da região, como forma de aliviar o peso que já começava a sentir.
Passados os nove meses, nasceu a sua filha. Por um momento, ela sentiu uma alegria imensa, esperança de um novo começo. Mas ao olhar bem para o rosto da menina, viu com clareza: era a cara do pai, a cópia exata daquele homem que tanto lhe fizera sofrer. A dor antiga voltou toda de uma vez, transformou-se em revolta, e ela começou a rejeitar a própria filha, pois cada vez que olhava para a criança, lembrava de todo o mal que havia passado e até do crime que havia cometido.
A tristeza tomou conta de tudo. Ela começou a beber muito para tentar esquecer, deixou a vida de lado e se entregou à bebida e ao desespero. Foi numa dessas noites, perdida e sem rumo, que conheceu um homem ruim, de coração duro e intenções malignas. Ele a enganou, levou-a à força para dentro do cemitério, num lugar escuro e afastado. Lá, ele a violentou, bateu nela sem piedade até que a vida se apagasse do seu corpo, e jogou o seu cadáver em cima de uma catatumba de número 7777, uma das sete catatumbas que guardam mistérios e forças profundas.
Foi ali, naquele lugar sagrado e sombrio, que ela desencarnou, mas não desapareceu. Sua energia forte, de quem sofreu tanto com a maldade dos homens, se transformou em luz e proteção. Hoje ela é Pomba-Gira Menina das 7 Catatumba, uma das entidades mais queridas e poderosas de nosso terreiro.
Ela se dedica a acolher, amparar e ajudar todas as mulheres que sofrem violência, que são agredidas, violentadas ou maltratadas. Ela sabe bem o que é essa dor, e por isso chega com toda a sua força para defender as filhas e dar fim ao sofrimento de quem passa por aquilo que ela um dia passou.
Seus gostos são lembranças do que conheceu e do que gosta de oferecer:
- Cor preferida: O roxo, cor da sabedoria, da força e da realeza das entidades do cemitério.
- Oferendas: Ama champanhe e gosta de cigarilhas, que ela fuma com muito estilo, soltando a fumaça para limpar e abençoar os caminhos de suas filhas e filhos.
Ela é moça, é menina, é senhora das catatumbas — e onde há lágrima de mulher, lá está ela, chegando com sua saia rodada, sua coroa e sua força, para dizer: chega de sofrer, agora é hora de justiça!