Conheci Menina a muito tempo atrás.Foi nas primeiras vezes que eu comecei a frequentar um terreiro,ia com alguns amigos e principalmente
tinha um contato muito forte com Maria Padilha e Dama da noite.
MENINA DO CABARÉConheci Menina a muito tempo atrás.Foi nas primeiras vezes que eu comecei a frequentar um terreiro,ia com alguns amigos e principalmente
tinha um contato muito forte com Maria Padilha e Dama da noite.
Em um dia de festa chegamos no terreiro e logo
Maria Padilha e Dama incorporaram, em seguida delas uma senhora já com mais de sessenta anos
de idade incorporou sua Entidade, fiquei muito surpreso pois assim que vestiram aquela pomba gira a idade da médium desapareceu, ela andava com passinhos curtos e tinha um vestido muito similar ao das outras pomba giras mas o seu em especial era amarrado com um enorme laço na
parte de trás tal qual os vestidinhos das crianças.
Quando fazia algum gracejo ela ria com a voz bem fininha e quando alguém lhe contava algo muito engraçado ela gargalhava ainda com a voz fina
mas cobrindo a boca com a mão tal aquelas gueixas japonesas fazem, ou seja eu nem sabia quem ela era mas imediatamente identifiquei
aquele comportamento como o de uma moça muito jovem.Comentei com Maria Padilha que aquela entidade era uma das mais bonitas que já havia visto,principalmente quando se
movia pelo salão parecendo mais uma boneca do que de fato um espírito incorporado em alguém.
Maria Padilha olhou para mim levantando uma de
suas sobrancelhas e com seu sarcasmo costumeiro disse:
Perguntei porque ela havia dito isso e Padilha me contou que aquela entidade se chamava
pombagira Menina, a famosa Menina do cabaré.
Resumiu de forma debochada a história de que a menina tinha cerca de quatorze anos quando morreu e que com essa tenra idade já era experiente na prostituição e que todos deviam ter pena dela por conta de ter sido uma criança levada a esta vida suja. Após ela contar a história eu
perguntei porque do deboche na voz,então Padilha me disse algo que me deixou surpreso:
Não soube responder a pergunta
eu não sabia os motivos de Menina
então Padilha continuou explicando:
Até eu mesma que tenho toda a minha experiência de vida e de morte já me peguei surpresa com as atitudes que vi menina tomar. Você quer um conselho de amiga? Quando for lidar com Menina sorria para ela mas não lhe conte nada, ela pode usar cada palavra que for dita contra você e mesmo sem que você perceba ela lhe afunda num poço de lama de onde você nunca mais sai.
Fiquei chocado com aquilo pois voltando a observar aquela médium incorporada a Menina no corpo dela parecia uma coisa tão doce que foi difícil de acreditar nas palavras que Padilha dizia.
Perguntei então porque Menina era admitida dentro do terreiro e por que tinha tanta liberdade
entre as outras pomba giras se ela era tão difícil como descrito Padilha explicou:
Menina é do tipo não tem nenhum problema em atear fogo em um inimigo e observá-lo gritar enquanto ela ri e dança na luz da chamas, mas ao mesmo tempo se um de seus médiuns precisa de algo ela se esforça até se exaurir para ajudar aquela pessoa. Ela é o que nós chamamos de bipolar, para uns é extremamente boa e para outros é extremamente má, uma mistura de Santa com Satanás.
Passado algum tempo a médium incorporada com Menina se aproximou de nós e estendendo
os braços de modo teatral se encaminhou para abraçar Maria Padilha.Padilha se abaixou pois a médium eram tanto quanto nanica então deixou que Menina a abraçasse, o que eu vi naquele abraço foi algo que corroborou com tudo que
Maria Padilha havia dito, no momento inicial do abraço Menina sorria de orelha a orelha
mas quando seus braços envolveram a cintura e sua cabeça ficou ao da de Padilha naquele abraço apertado.
O rosto de Menina perdeu o sorriso e se transformou em uma máscara fria sem nenhuma emoção. Eu ali atrás observei bem e quando os olhos dela se encontraram com os meus imediatamente ela voltou a sorrir como se
nada tivesse acontecido e assim que ela é.
Para aqueles que tem a grande sorte de serem escolhidos como médiuns da Pombagira Menina eu apenas tenho que dizer que por mais que eu
ame a minha própria entidade tenho sim um pouco de inveja deles,inveja desse amor incondicional que Menina tem por aqueles que
escolhe para si.Já para os lunáticos que de
uma maneira impensada decidem desafiar esta entidade, pela Minha experiência própria em todos estes anos que estou dentro da espiritualidade eu lhes afirmo que não existe buraco profundo
onde possam se esconder e nem pedra pesada que possam se enfiar por baixo, não há como fugir da fúria de Menina e ela não conhece misericórdia.
Tenha muito cuidado com ela e nunca a afronte.
(Memórias de Terreiro)
(Arte e texto por Felipe Caprini)