"A CHAVE TÁ NA TUA MÃO — MAS TU INSISTE EM BATER NA PORTA."
"A CHAVE TÁ NA TUA MÃO — MAS TU INSISTE EM BATER NA PORTA."
— FALA DO EXU —
Chega mais, minha filha. Escuta sem fugir.
Tu se trancou. Não porque o mundo seja mau — porque a cruz pesa demais. E achou que se ninguém te visse, ninguém notaria o fardo. Então carrega tudo sozinha, no escuro, em silêncio — e chama isso de força. Não é força: é cárcere com cruz dentro.
A chave sempre esteve na tua mão. Mas tu não gira. Porque abrir a porta significa mostrar o que carregas — e tu prefere o peso ao olhar. Prefere sofrer a pedir. Prefere rodar a pousar.
E lá fora, tu corre de brilho em brilho. Não vais achar o que procura em festa, nem em aparência, nem em sorriso bonito que não chega ao coração. Tu enche os olhos de luz alheia pra não ver o vazio que carregas por dentro. Mas festa acaba, brilho apaga, e o que fica é tu — de novo, sozinha, com a mesma cruz.
Teu coração virou garça: voa sempre, nunca pousa. Presente mas distante, perto mas intocável. Não se entrega ao amor, não confia na amizade, não descansa em ninguém. E chama isso de liberdade. Não é liberdade — é medo com asa.
E em casa? A ilusão segura o que já caiu. "Tudo bem", "vai melhorar", "um dia se ajeita". Não vai. Ilusão não resolve — adia. E o que tu não poda, cresce até que a vida mesma corta.
Então hoje eu te digo:
1️⃣ Gira a chave. Abre a torre. Mostra o que pesa. Pede ajuda. Peso dividido é peso pela metade. Ninguém te julga por carregar — só por esconder.
2️⃣ Pousa de verdade. Para de rodar de festa em festa, de brilho em brilho. O que buscas não está no que os outros mostram — está no que tu aprendes a construir. Aterrissa em quem te vê de verdade. Garça que não pousa não faz ninho — e tu merece abrigo.
3️⃣ Corta a fantasia. O que se sustenta de aparência já morreu. Não adianta correr pra fora se o que pesa tá dentro. Enfrenta, limpa, reconstrói — ou solta. Mas não adia mais.
A torre te protegeu um tempo. Agora te prende. Abre, minha filha. O sol não entra em porta fechada — e tu nasceu pra brilhar, não pra ficar no escuro.
Laroyê. Mojubá.