Vivia sozinha em um barraco minúsculo
Aqui na zona norte de São Paulo
Em uma favela perto de casa.
Eu a conheci em uma festa de Cosme e Damião

Seu nome era Maria da Paz
Mas para todos que perguntavam
Ela sorria com a boca quase sem dentes
E diz "Eu sou Paizinha...".
Paizinha...
Vivia sozinha em um barraco minúsculo
Aqui na zona norte de São Paulo
Em uma favela perto de casa.
Eu a conheci em uma festa de Cosme e Damião,
Ela gostava de ir nos terreiros
E eu sempre esbarrava com ela.
Neste dia meu acompanhante teve
De sair mais cedo
E eu acabei sozinho na festa
E do meu lado estava sentada dona Paizinha.
Ela quis puxar assunto
E eu falador como sou dei corda
E nós dois papeamos por horas.
No fim da festa ela se foi
E a mãe de Santo da casa, dona Carmem
Veio até mim e contou
Fiquei muito curioso
Pois como era possível
Que uma Mãe de Santo tão ilustre
Acabasse a vida daquele jeito?
Sozinha em um barraco de chão
De terra batida.
Umas semanas depois
No Akará de Iyansa eu a encontrei novamente
Dona Paizinha sentada em uma cadeira
La no canto do terreiro
Cantando e aplaudindo
Com feitio de encanto.
Eu fui até lá e sentei com ela.
Eu quis saber mais mas naquele dia
Ela não quis contar mais nada.
Eu sou muito curioso
Então fui até seu Leopoldo,
Uma velho batuqueiros do terreiro
Que estava lá desde a época da fundação
E perguntei sobre Paizinha.
Pensei muito no que ele disse.
Anos depois em uma festa de Padilha
Na casa de uma outra mãe de Santo
Da mesma região,
Eu fui e quando chego lá
Dou de cara com Paizinha.
Lá estava ela sentada no fundo
Balançando as pernas por ser tão baixinha
Que ao sentar os pés não tocavam o chão.
Cumprimentei e fui falar com as entidades
Mas dali a pouco o inimaginável acontece,
O salão todo se cala quando
Uma gargalhada rouca ecoa,
Quando olhei para trás lá vinha
Dona Paizinha com a coluna ereta
E a postura firme,
Era ele sim, era Marabô.
Fazia mais de vinte anos que ele não vinha
E agora estava lá.
Não sei de onde tiraram um paletó
Um chapéu e calças
E o vestiram,
Aquele pitoco de pessoa
Se ainda era pequeno
Mas a presença era inconfundível,
Exu Marabô.
Era um Exu de comportamento diferente
Era um das antigas sabe?
Cumprimentava batendo as costas
Das mãos nas dos outros,
Andava meio torto
Com todos aqueles trejeitos
Que hoje em dia as entidades
Ja não usam mais.
Ele não quis dar consulta
Não quis ficar de papo,
Apenas dançou a festejou.
No meio da madrugada,
Quando a festa ainda
Estava longe do fim
Ele pediu para os tambores pararem
E cantou
A principio não entendi
Não fazia sentido ele se despedir
No meio da festa,
Mas as entidades começaram
A engrossar o coro
Cantando junto
E uma a uma
Todas as pombagiras e Exus
Foram até ele o abraçaram.
Dali a pouco ele foi embora
E Paizinha foi para casa sozinha
Muito antes da festa acabar,
Disseram que estava passando mal
Ou coisa do tipo.
Quando ja estava para o festejo acabar
Padilha veio e me disse
Não entendi
Demorei a pescar a informação
Que ela tentou passar.
Era pra lá de sete da manhã
Quando eu fui pra casa,
E para chegar tinha de passar
Em frente a entrada da favela,
E lá estava uma multidão
Em pleno sábado de manhã,
A ambulância na porta do barraco
Da velha dona Paizinha.
A ambulância estava com as portas abertas,
Ninguém dentro.
Perguntei a vizinha o que estava acontecendo
E ela disse que dona Paizinha
Havia passado mal
E quando a ambulância chegou
Já não havia o que fazer.
Ambulância não leva cadaver,
Eles foram embora
E o carro da perícia chegou
Quando já passava do meio dia.
Dona Paizinha morreu em paz
E hoje raros são os que se lembram dela,
É como se nunca houvesse existido.
Mas eu me lembro.
Marabô veio uma última vez
E deu a ela... paz.
Não sei o que aconteceu
Naquele último momento
Entre dona Paizinha e Exu Marabo,
Mas qualquer um que visse
Seu rosto no momento derradeiro
Veria que ela estava finalmente em paz.
Lá no meio da multidão encontrei Leopoldo
Que apoiado em sua bengala observava tudo
No mais mudo silêncio.
E assim se encerrou mais uma jornada.
Porque eu contei está história?
Me pediram que contasse algo de Exu Marabô, e entre tantos contos e histórias mirabolantes eu apenas quis contar essa que é a mais simples, mas é uma memória verdadeira.
Relatos e Contos do Axé, Arte e texto por Felipe Caprini
Espero que tenham gostado!
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