sábado, 31 de janeiro de 2026

O Sétimo Sopro: A Sétima Falange de Oxalá, o Canto do Caboclo Ubirajara e o Redemoinho Sagrado do Exu Sete Ventanias

 

O Sétimo Sopro: A Sétima Falange de Oxalá, o Canto do Caboclo Ubirajara e o Redemoinho Sagrado do Exu Sete Ventanias


O Sétimo Sopro: A Sétima Falange de Oxalá, o Canto do Caboclo Ubirajara e o Redemoinho Sagrado do Exu Sete Ventanias

Há um momento, no crepúsculo, em que o vento para. Não por ausência de força, mas por plenitude. Nesse instante suspenso — entre o dia que se despede e a noite que se prepara para nascer — o universo respira fundo. E é nesse sopro cósmico que a Sétima Falange se manifesta: não como fim, mas como retorno à origem. A sétima onda que completa o ciclo das marés. O sétimo vento que varre não apenas o que apodreceu, mas também o que já cumpriu seu propósito. Sob o manto infinito de Oxalá, esta falange não fecha portas — ela as transforma em horizontes.

A Coroa das Sete Águas: A Sétima Falange na Ordem Divina

Na Umbanda, o número sete não é arbitrário. É o número da completude: sete dias da criação, sete chakras, sete mares que banham os sonhos da humanidade. A Sétima Falange, embora emanando da fonte serena de Oxalá — o criador, o velho pai de todos os tempos —, vibra em sintonia profunda com Iemanjá, a mãe das águas salgadas, guardiã dos mistérios do abismo e das promessas que nascem do fundo do mar.
Esta não é uma contradição. É um segredo sagrado: Oxalá é a fonte; Iemanjá é o rio que retorna à fonte. A Sétima Falange representa esse movimento circular — o retorno consciente do filho à mãe, da gota ao oceano, da alma à divindade. É a falange do equilíbrio final: não o equilíbrio estático da ausência de conflito, mas o equilíbrio dinâmico daquele que aprendeu a dançar com as marés da existência sem perder o centro.
E nesse território sagrado de transição eterna, duas forças se entrelaçam como raiz e vento: o Caboclo Ubirajara, cujos pés conhecem o segredo das matas e o sal das marés; e o Exu Sete Ventanias, cujo corpo é feito do sopro que move mundos.

Caboclo Ubirajara: O Filho da Terra que Aprendeu a Nadar nos Mares da Alma

Ubirajara — nome que evoca "senhor da flecha" ou "aquele que domina com justiça" — não é apenas um espírito da floresta. Ele é o guardião das fronteiras sagradas: onde a mata encontra o mar, onde o rio deságua no oceano, onde o chão firme se entrega à imensidão líquida. Sua sabedoria não é de um único elemento; é da transição harmoniosa entre eles.
Sua ligação com Oxóssi revela seu domínio sobre a mata virgem — conhece cada folha que cura, cada raiz que sustenta, cada trilha que leva ao centro do ser. Mas sua afinidade com Iemanjá revela algo mais profundo: ele compreende que toda floresta nasce da água, que toda raiz busca o lençol subterrâneo como o coração busca a fonte da compaixão.
Sua atuação é silenciosa, mas transformadora:
  • Na cura das raízes emocionais: Ubirajara não trata sintomas. Ele busca a nascente da dor — aquela primeira vez em que você engoliu uma lágrima para não incomodar, aquela promessa não cumprida a si mesmo que se transformou em raiz de amargura. Com as mãos cheias de terra úmida e sal marinho, ele desfaz nós energéticos que nem a mente consciente reconhece.
  • Na orientação dos perdidos existenciais: Quando alguém pergunta "para onde vou?" não por falta de endereço, mas por ausência de propósito, é Ubirajara quem surge como farol. Não aponta um caminho único; revela que todos os caminhos levam ao mar, desde que caminhemos com o coração aberto.
  • No equilíbrio entre força e fluidez: Sua flecha é certeira, mas seu arco é flexível. Ele ensina que a verdadeira força não é rigidez — é a capacidade de dobrar-se ao vento sem quebrar, como o bambu à beira-mar.
Nas giras, quando seu ponto é cantado — "Ubirajara, Ubirajara / Filho da mata, filho do mar..." — o ar ganha um cheiro de terra molhada e maresia. O corpo relaxa não por cansaço, mas por reconhecimento: você está em casa. Não na casa de tijolos e telhas, mas na casa cósmica onde terra e água se abraçam em eterno matrimônio.

Exu Sete Ventanias: O Dançarino das Correntes Invisíveis

Se Ubirajara é a raiz que sustenta, Sete Ventanias é o vento que renova. Seu nome não é metáfora: ele é feito das sete correntes de ar que circulam o planeta — não apenas o vento físico, mas as correntes invisíveis que movem destinos, limpam ambientes energéticos e transportam sementes de transformação para terras distantes.
Sua história, contada em sussurros nos terreiros mais antigos, fala de um homem livre nascido à beira de um manguezal no litoral baiano. Desde criança, sentia o chamado dos ventos — não os ventos comuns, mas aqueles que sopram entre os mundos. Tornou-se pescador, mas sua verdadeira pesca era de almas à deriva. Na morte, não se dissolveu no ar; tornou-se o próprio ar que carrega esperança.
As sete ventanias que o compõem são forças vivas:
  1. O Vento do Leste — traz o novo, o amanhecer, as sementes de projetos ainda não nascidos.
  2. O Vento do Oeste — leva o que deve partir, as folhas secas da alma, as mágoas que já não servem.
  3. O Vento do Norte — aquece corações gelados pelo medo, traz a coragem de recomeçar.
  4. O Vento do Sul — refresca paixões descontroladas, traz a serenidade da maturidade.
  5. O Vento do Zênite — desce do alto com bênçãos disfarçadas de desafios.
  6. O Vento do Nadir — sobe das profundezas trazendo tesouros escondidos no inconsciente.
  7. O Vento do Centro — não sopra de lugar nenhum; é o olho do furacão, o silêncio onde Deus habita.
Sua atuação é essencial na Sétima Falange:
  • Limpeza de ambientes energéticos: Enquanto outros Exus "cortam" demandas com facão, Sete Ventanias as dissipa — como o vento que leva a fumaça, sem violência, mas com inevitabilidade.
  • Movimentação de energias estagnadas: Em casas onde o luto se petrificou, em corações onde o perdão não flui, ele entra como brisa suave e, em sete dias, sete horas ou sete minutos, algo se desloca. Uma janela se abre sozinha. Uma lágrima cai sem motivo aparente. É ele — trabalhando.
  • Proteção em áreas de transição: Encruzilhadas, portos, aeroportos, cemitérios à beira-mar — qualquer lugar onde energias se cruzam é guardado por sua presença. Ele não impede a passagem; regula o fluxo, garantindo que só o que deve passar, passe.

O Abraço Cósmico: Ubirajara e Sete Ventanias na Dança da Sétima Falange

Na Sétima Falange, estas duas forças não se alternam — dançam juntas. E nessa dança reside o segredo do equilíbrio espiritual:
  • Quando Ubirajara planta uma semente de cura no coração de alguém — a coragem de perdoar, a decisão de mudar de vida — é Sete Ventanias quem sopra sobre ela, trazendo a chuva necessária e afastando a geada do desânimo.
  • Quando Sete Ventanias varre uma casa de energias densas, é Ubirajara quem planta, na terra agora limpa, ervas de proteção e flores de alegria — para que o vazio não seja ocupado pelo medo, mas pela beleza.
Eles atuam onde a alma enfrenta seu desafio supremo: não escolher entre raiz e asa, mas aprender a ter raízes que voam e asas que nutrem. No consultório do terapeuta que, ao final da sessão, sente-se renovado inexplicavelmente — é Ubirajara fortalecendo sua intenção; é Sete Ventanias levando embora a carga emocional absorvida. Na mulher que, após anos de luto, acorda com vontade de plantar um jardim — é a Sétima Falange em ação: a raiz da memória honrada (Ubirajara) e o vento que traz novas sementes (Sete Ventanias).

Onde Sopra o Sétimo Vento: Presença no Mundo Visível

Esta falange não habita apenas terreiros à beira-mar. Sua presença é sentida onde quer que haja:
  • Nas praias ao amanhecer, quando o vento sopra do mar para a terra trazendo aquela paz inexplicável que cura feridas que nem nomeamos.
  • Nos hospitais à beira-mar, onde pacientes em estado terminal muitas vezes partem com um sorriso sereno — Ubirajara segura sua mão; Sete Ventanias abre o portal com suavidade.
  • Nas casas onde uma janela sempre abre sozinha, mesmo trancada — não é corrente de ar; é Sete Ventanias passando, levando consigo o que já não serve.
  • Nos momentos de decisão crucial, quando uma intuição suave — como brisa fresca na testa — nos guia a escolher o caminho da alma em vez do caminho do medo.

A Lição que o Sétimo Sopro Nos Confia

A Sétima Falange nos revela o mistério final da jornada espiritual:
Não se trata de escolher entre a terra e o céu. Trata-se de compreender que a terra é o céu em estado de raiz. E o céu é a terra em estado de sopro.
Caboclo Ubirajara e Exu Sete Ventanias nos ensinam que:
  • A cura verdadeira exige tanto ancoragem quanto liberdade: raízes profundas para não sermos arrastados pelas tempestades; asas leves para não nos petrificarmos no chão do medo.
  • A proteção não é muralha — é movimento: Sete Ventanias não nos isola do mundo; ensina-nos a fluir através dele como o vento através das folhas — presente, mas nunca preso.
  • O equilíbrio não é ponto fixo — é dança contínua: entre dar e receber, entre falar e calar, entre lutar e soltar — a Sétima Falange nos ensina a respirar com a alma.
Na próxima vez que sentir uma brisa inesperada tocar seu rosto em um momento de dúvida — saiba: é Sete Ventanias trazendo clareza. E quando, nesse mesmo instante, seus pés sentirem-se mais firmes no chão — saiba: é Ubirajara lembrando-lhe que você é filho da terra e do mar.
E acima de ambos, envolvendo-os no manto branco que é também azul como o oceano infinito, está Oxalá — que nunca foi apenas velhice, mas também o mar que tudo abraça; e Iemanjá — que nunca foi apenas mãe, mas também o vento que embala os sonhos dos filhos.
Pois a Sétima Falange nos revela o segredo mais antigo:
O último passo da jornada não é chegar. É compreender que nunca partimos. Estivemos sempre no colo da Mãe, soprados pelo Pai, dançando entre a raiz e o vento — inteiros, livres, e para sempre em casa.
E quando o sétimo vento soprar sobre você — suave, inesperado, carregado de sal e terra — não pergunte de onde vem.
Apenas feche os olhos.
Respire fundo.
E deixe-se levar de volta ao mar que nunca deixou de ser seu.