terça-feira, 13 de janeiro de 2026

“Vem Cá, Fia…” – Um Colo de Ervas, Oração e Amor Ancestral na Umbanda

 

“Vem Cá, Fia…” – Um Colo de Ervas, Oração e Amor Ancestral na Umbanda

“Vem Cá, Fia…” – Um Colo de Ervas, Oração e Amor Ancestral na Umbanda

Vem cá, fia…

Essas palavras simples, carregadas de ternura ancestral, ecoam como um chamado suave vindo do além — não de um além distante, mas daquele lugar sagrado onde os orixás se entrelaçam com os pretos-velhos, onde o tempo se curva em respeito à sabedoria dos mais antigos. É nesse encontro entre o visível e o invisível que a Umbanda nos acolhe, não com julgamentos, mas com colo.

“Colo jamais há de lhe faltar.”

Quantas vezes ouvimos isso em meio a uma consulta, em um giro, ou até mesmo em silêncio, quando o coração pesa mais que o corpo? A voz da vovó preta-velha — muitas vezes encarnada na figura de Vovó Maria Redonda, sentada em seu banquinho tosco, rosário nas mãos, olhar sereno sobre o mundo — é um bálsamo para as almas feridas pela vida adulta. Ela não promete milagres fáceis, mas oferece algo muito mais raro: presença. Compreensão. Silêncio que escuta. Choro que abriga.

“O meu colo velho e cansado já serviu de abrigo pra muitas histórias… e com vosmecê não há de ser diferente.”

Há uma beleza profunda nessa simplicidade. Não há dogmas rígidos, nem cobranças. Só um convite: “Fala, fia… ou simplesmente fica aqui.” Porque às vezes, diante das dores do mundo, não há palavras que bastem — só o calor de um colo que já viu tantas tempestades passarem. Um colo que sabe que, por trás da postura firme da mulher adulta, há uma menina que ainda quer fugir dos tombos, que sonha em voltar a ser criança miúda, que nem andar sabe… só para não sentir tanto.

Mas então a vovó sussurra, bem no pé do ouvido, com a voz embalada pelo vento das encruzilhadas e pelo cheiro de alecrim queimando no atabaque:

“Quem te ensinou a andar foi o tempo. Tu começaste a dar os primeiros passos graças aos tombos levados quando criança era… e agora não é diferente.”

E é aí que reside a verdadeira magia da espiritualidade umbandista: ela não nos tira os tombos da vida — ela nos ensina a levantar com dignidade, com fé, com as ervas certas nos cantos da casa e a proteção dos guias nos ombros. A vovó não carrega a cruz por nós; ela nos mostra como aliviar o peso com uma reza, um banho de manjericão, um copo d’água deixado na janela sob a luz da lua.

“A vó vai botar as ervas e moringas em cada tombo dado. A vó vai dar colo quando filha precisar.”

Essa promessa não é simbólica apenas — é prática, cotidiana, viva. Nas casas de Umbanda, nas rodas de terreiro, nas orações murmuradas ao acender uma vela branca, esse colo ancestral se manifesta. E mesmo longe do barracão, basta fechar os olhos e pensar:

“Pensa em uma casinha branca, filho… que a vovó tá lá, sentada em um banquinho tosco, com o rosário na mão, fazendo oração.”

É nesse pensamento que a conexão se fortalece. Porque os pretos-velhos não habitam apenas os altares — habitam os corações que os reconhecem. Eles são memória viva, resistência espiritual, amor incondicional disfarçado de simplicidade.

Por isso, quando o mundo parecer frio demais, lembre-se:
Levante desse banquinho da dor.
Respire fundo.
E saiba, com toda a certeza da fé, que enquanto houver uma vela acesa, um copo d’água ofertado, ou um nome sussurrado em prece… a vovó estará lá.

“Fia, se vosmecê precisar, é só pensar na vovó… que ela vem te ajudar.”

E assim, entre o choro e o sorriso, entre o tombo e o levantar, caminhamos — amparados, guiados, amados.
Porque na Umbanda, ninguém chora sozinho.
Ninguém anda sem proteção.
E nenhuma alma fica sem colo.

Adorei as almas.