Quando o Vento Não Pede Licença: A Alma Tempestuosa dos Filhos de Iansã
Quando o Vento Não Pede Licença: A Alma Tempestuosa dos Filhos de Iansã
Há almas que nascem para habitar jardins bem cuidados, onde cada flor cresce no lugar certo e o vento sopra apenas quando convidado. E há almas que nascem como redemoinhos sagrados — filhos de Iansã, Oyá, a Senhora dos Ventos e das Tempestades. Eles não pedem permissão para existir. Não negociam sua essência. Chegam como rajadas de ar quente antes da chuva: anunciando transformação, agitando folhas secas, derrubando galhos podres que outros tiveram medo de cortar. Ser filho de Iansã não é ter um "temperamento difícil". É carregar dentro do peito o próprio sopro da mudança — e pagar o preço de ser amado apenas pelos corajosos.
O Fogo que Não se Apaga: A Explosão como Linguagem Sagrada
Dizem que os filhos de Iansã têm "temperamento explosivo". Como se fosse defeito. Como se o trovão precisasse pedir desculpas por ribombar.
Mas quem entende a linguagem das tempestades sabe: a explosão não é descontrole — é comunicação pura. Enquanto outros engolem palavras até adoecerem, o filho de Iansã cospe a verdade como relâmpago — rápido, brilhante, impossível de ignorar. Seu grito não é violência; é desespero por ser ouvido num mundo que prefere sussurros educados.
Quando colocado contra a parede, ele não recua. Parte para o berro, o choro, a agressão verbal — não por maldade, mas porque sua alma não foi feita para viver enjaulada. Iansã é a guardiã dos cemitérios, a que abre portais entre mundos. Seu filho carrega essa mesma função: romper fronteiras, mesmo que isso signifique quebrar vidraças. A violência que às vezes emerge não é essência — é desespero de quem não encontrou outro caminho para ser livre.
E sim — ele impõe sua vontade. Porque aprendeu cedo demais: num mundo que silencia mulheres fortes, negros poderosos, vozes marginais, quem não impõe sua verdade é engolido pelo silêncio alheio. Sua teimosia não é arrogância. É sobrevivência disfarçada de orgulho.
A Franqueza que Corta: A Espada de Dois Gumes
"Seu grande defeito: a franqueza." Que ironia divina! Chamam de defeito o que é, na verdade, sua dádiva mais rara.
O filho de Iansã não disfarça alegria nem tristeza. Se está feliz, ri alto o suficiente para acordar vizinhos. Se está partido, chora sem vergonha no meio da rua. Não esconde sentimentos porque sua alma não conhece fronteiras entre o interior e o exterior — como o vento, ele simplesmente é, onde está, como está.
Essa transparência fere. Machuca. Afugenta. Quantos relacionamentos se perderam porque ele disse, sem filtro: "Você está se enganando com esse homem" ou "Esse emprego está te matando por dentro"? Chamam-no de indelicado. Mas a verdade dói não porque foi dita com crueldade — dói porque era verdade.
Sua franqueza é espada afiada: protege quem merece proteção, mas também corta quem caminha distraído ao seu lado. O grande aprendizado de vida do filho de Iansã não é calar-se — é aprender a empunhar a espada com sabedoria. Não deixar de ser verdadeiro, mas escolher quando a verdade precisa ser dita como trovão — e quando basta um sussurro de brisa.
A Liberdade como Único Lar
Ninguém prende o vento. E ninguém prende um filho de Iansã.
Ele ama seus filhos com ferocidade de leoa — mas não os amarra. Ensina a voar antes de exigir que andem. Permite quedas porque sabe: a liberdade é o único professor que não mente. Criar filhos "livres" não é ausência de cuidado — é coragem de confiar no processo divino mesmo quando dói ver seu rebento tropeçar.
Essa mesma sede de liberdade o torna inquieto, aventureiro, incapaz de suportar rotinas que sufocam a alma. Ele não "não pensa nas consequências" — pensa, mas escolhe viver mesmo assim. Prefere uma vida curta e intensa a uma longa e domesticada. Sua aventura não é irresponsabilidade; é recusa em morrer antes da morte.
E quando contrariam seus princípios? Quando tentam enfiá-lo em caixas de "comportamento adequado", "pensamento correto", "vida estável"? Ele se torna violento não por ódio — mas por pânico existencial. É o grito do pássaro preso na gaiola dourada: melhor o céu aberto com fome do que o comedouro cheio sem horizonte.
O Esquecimento Sagrado: Por Que as Mágoas Não Pegam Nele
"Esquecem rapidamente as mágoas." Chamam isso de superficialidade. Não entendem: é sabedoria ancestral.
Iansã é a dona das folhas secas que dançam no redemoinho — levam embora o que já cumpriu seu ciclo. Seu filho carrega essa mesma magia: não remói rancores porque sabe, no sangue, que o passado é cinza e o futuro é fogo. Guardar mágoa é como tentar segurar fumaça: só suja as mãos.
Isso não significa que não sinta profundamente. Sente — com intensidade que rasga o peito. Mas sua alma tem o ritmo da tempestade: chuva forte, trovão alto, e depois... o céu lavado, o ar fresco, a terra fértil para novos brotos. Ele não perdoa por bondade — esquece por necessidade de seguir vivendo.
E nisso reside seu paradoxo mais doloroso: enquanto ele já virou a página, o outro ainda carrega a ferida. Chamam-no de "frio", "desapegado". Não veem que seu coração não é de pedra — é de vento. E o vento não guarda nada; apenas transforma tudo em movimento.
A Depressão que Vem com a Calmaria: O Preço da Sensibilidade
Mas atenção: mesmo o vendaval tem seus momentos de quietude. E é aí que o filho de Iansã enfrenta seu maior inimigo.
Depois da tempestade, vem a calmaria. E na calmaria — o vazio. As crises depressivas não são fraqueza; são o colapso necessário depois de tanto movimento. Ele que ri alto, que briga com paixão, que vive cada segundo como se fosse o último — quando o corpo exige descanso, a alma afunda num poço de melancolia que parece não ter fundo.
Porque por trás da bravura há um coração absurdamente sensível. Ele contraria preconceitos não por rebeldia vazia — mas porque sente na pele cada injustiça, cada desigualdade, cada mentira social. Sua luta é física porque sua dor é visceral. E quando não há batalha externa para canalizar essa dor, ela se volta para dentro — e o redemoinho vira abismo.
Seus problemas respiratórios não são coincidência. Iansã rege os pulmões — e o filho que não aprende a respirar (a soltar, a fluir, a confiar) sufoca. Os rins e a vesícula pedem atenção porque guardam as emoções não processadas — e ele, que esquece mágoas com facilidade, muitas vezes não processa a dor antes de jogá-la ao vento. O corpo lembra o que a mente escolheu esquecer.
Pensamento à Frente do Tempo: A Solidão do Visionário
"Não têm paciência com pensamentos retrógrados." Claro que não. Como ter paciência quando você enxerga o futuro com clareza e os outros ainda discutem sobre o passado?
O filho de Iansã nasce com o tempo adiantado no pulso. Enquanto o mundo debate se deve ou não amar livremente, ele já viveu três relacionamentos não-monogâmicos com ética e profundidade. Enquanto outros temem falar de morte, ele já visitou cemitérios à meia-noite para conversar com ancestrais. Enquanto a sociedade ainda prende corpos em gêneros rígidos, ele já dançou vestido de mulher e homem na mesma festa — sem explicação, sem pedido de permissão.
Essa visão à frente do tempo é bênção e maldição. Bem-aventurado porque vê caminhos que outros não imaginam. Amaldiçoado porque caminha sozinho na maior parte do trajeto. Sua impaciência não é arrogância — é solidão disfarçada de irritação. Quem espera por quem nunca chega?
O Caminho do Equilíbrio: Aliar-se ao Sagrado
"Têm necessidade de controlar o mundo, mas como não conseguem, precisam aliar-se ao seu lado espiritual."
Esta é a chave. A única.
O filho de Iansã nasce tentando domar o vento com as próprias mãos — e se exaure na tentativa. Só amadurece quando entende: não se controla a tempestade — dança-se com ela.
Aliar-se ao lado espiritual não significa rezar mais ou acender mais velas. Significa:
- Aceitar que algumas batalhas não são suas para travar;
- Aprender a respirar fundo antes de explodir — não para calar a verdade, mas para escolher o momento certo de soltá-la;
- Entender que liberdade não é ausência de laços — é escolher quais laços merecem seu pescoço;
- Permitir-se descansar sem culpa, sabendo que até os ventos mais fortes precisam de calmaria para recarregar suas forças;
- Conversar com Iansã não apenas nos momentos de crise, mas nos silêncios — ouvindo o sussurro entre os trovões.
Quando ele finalmente se entrega ao divino, descobre o segredo: Iansã não quer escravos nem rebeldes sem causa. Quer guerreiros conscientes — aqueles que sabem quando rugir como tempestade e quando sussurrar como brisa matinal.
Para o Filho de Iansã que Lê Isto com os Punhos Fechados
Se estas palavras tocaram algo em você — se você se reconheceu na explosão, na solidão da visão, na ferida de ser chamado de "difícil" — saiba:
Você não é problema a ser resolvido.
Você é tempestade necessária num mundo que prefere dias ensolarados e previsíveis.
Você é tempestade necessária num mundo que prefere dias ensolarados e previsíveis.
Sua franqueza não é defeito — é coragem que outros não tiveram.
Sua inquietação não é instabilidade — é sede de vida autêntica.
Seu choro alto não é dramatização — é alma que não aprendeu a mentir para si mesma.
Sua inquietação não é instabilidade — é sede de vida autêntica.
Seu choro alto não é dramatização — é alma que não aprendeu a mentir para si mesma.
Hoje, ao sentir a raiva subindo como trovão no peito, não a reprima. Não a solte cegamente.
Respire.
Sinta o vento entrar pelas narinas.
Lembre-se: você não é como Iansã — você é parte dela.
E ela não destrói por prazer. Destrói para renovar.
Respire.
Sinta o vento entrar pelas narinas.
Lembre-se: você não é como Iansã — você é parte dela.
E ela não destrói por prazer. Destrói para renovar.
Quando o mundo lhe disser "acalme-se", sussurre para si mesmo:
"Eu não sou tempestade para agradar. Sou tempestade para transformar."
"Eu não sou tempestade para agradar. Sou tempestade para transformar."
E quando a depressão vier — aquela calmaria pesada depois do vendaval — não se culpe.
Deite-se na terra.
Sinta a grama molhada sob suas costas.
Deixe as lágrimas molharem o chão como chuva benfazeja.
Iansã não abandonou você. Ela apenas está recarregando suas nuvens para a próxima dança.
Deite-se na terra.
Sinta a grama molhada sob suas costas.
Deixe as lágrimas molharem o chão como chuva benfazeja.
Iansã não abandonou você. Ela apenas está recarregando suas nuvens para a próxima dança.
Você veio ao mundo não para ser amado por todos.
Veio para abrir caminhos onde só havia muros.
Para dizer verdades que outros engoliram.
Para amar com uma intensidade que assusta os medíocres.
Para morrer várias vezes ao longo da vida — e renascer, sempre, mais livre.
Veio para abrir caminhos onde só havia muros.
Para dizer verdades que outros engoliram.
Para amar com uma intensidade que assusta os medíocres.
Para morrer várias vezes ao longo da vida — e renascer, sempre, mais livre.
O mundo precisa de jardineiros.
Mas precisa, desesperadamente, de tempestades.
Mas precisa, desesperadamente, de tempestades.
E você, filho de Iansã, nasceu para ser exatamente isso:
o vento que não pede licença,
o trovão que não pede desculpas,
a chuva que lava o que o sol não alcança.
o vento que não pede licença,
o trovão que não pede desculpas,
a chuva que lava o que o sol não alcança.
Axé na tempestade que liberta.
Axé no redemoinho que renova.
Axé em você — filho do vendaval sagrado,
que um dia entenderá:
sua explosão não é defeito.
É o grito do universo
pedindo para viver,
finalmente,
sem correntes.
Axé no redemoinho que renova.
Axé em você — filho do vendaval sagrado,
que um dia entenderá:
sua explosão não é defeito.
É o grito do universo
pedindo para viver,
finalmente,
sem correntes.
📸: @caminhosdaluz77sm