A Corrente Viva da 7ª Falange na Linha de Ogum: Caboclo Ogum Yara e Exu Tranca-Ruas na Dança das Águas e dos Caminhos
A Corrente Viva da 7ª Falange na Linha de Ogum: Caboclo Ogum Yara e Exu Tranca-Ruas na Dança das Águas e dos Caminhos
Nas profundezas vibracionais da Umbanda, onde cada linha representa um rio de força cósmica, a 7ª Falange da Linha de Ogum revela um mistério que desafia a lógica superficial: a fusão do guerreiro inabalável com a fluidez das águas. Comandada pelo enigmático Caboclo Ogum Yara e guardada pelo incansável Exu Tranca-Ruas, esta legião não apenas rompe barreiras — ela dissolve obstáculos como a correnteza dissolve a pedra, com paciência implacável e poder ancestral. Aqui, a espada de Ogum não corta apenas o mato fechado; ela fende as águas estagnadas da alma, permitindo que a vida flua novamente.
Ogum Yara: O Guerreiro que Dança nas Correntezas
Quem ousa nomear Ogum nas águas? Na superfície, parece contradição: Ogum, senhor do fogo, do ferro e das estradas secas, unido ao elemento líquido e mutável. Mas a sabedoria ancestral ensina que o verdadeiro guerreiro não teme a transformação — ele a domina. Ogum Yara (também reverenciado como Ogum Iara em algumas correntes) é a manifestação de Ogum que compreendeu o segredo supremo: a força mais poderosa não é a que quebra, mas a que modela sem perder sua essência.
Sua origem mergulha nas raízes profundas do Brasil: "Yara", do tupi îará ("senhora das águas"), entrelaça-se com a força guerreira de Ogum para criar um arquétipo único — não o Ogum do desmatamento bruto, mas o Ogum que desvia rios para salvar povoados, que constrói pontes sobre correntezas traiçoeiras, que purifica águas envenenadas com sua espada vibracional. Nas matas ribeirinhas e nas margens dos rios sagrados, Ogum Yara caminha onde outros afundariam: com os pés firmes na lama fértil, mas o espírito elevado como a águia que sobrevoa as corredeiras.
Na atuação contemporânea dos terreiros, Ogum Yara especializa-se em:
- Dissolver magias líquidas: Feitiços lançados através de bebidas, banhos maliciosos, oferendas contaminadas em rios ou poços — ele os identifica como o pescador identifica a corrente falsa e, com movimentos precisos de seu facão de prata, separa o veneno da água pura.
- Proteger viajantes das águas: Motoristas de caminhões que cruzam pontes à noite, pescadores que enfrentam tempestades repentinas, marinheiros em mares revoltos — todos recebem sua vibração protetora quando invocados com respeito.
- Lavar demandas ancestrais: Muitas maldições familiares fluem como rios subterrâneos, passando de geração em geração sem serem percebidas. Ogum Yara mergulha nessa corrente oculta e, com a força do guerreiro que não teme afogar-se no passado, arranca pela raiz os pactos que intoxicam a linhagem.
Seus médiuns, ao incorporá-lo, sentem uma dualidade sagrada: o peso do ferro nas mãos (a espada de Ogum) e o balanço suave do corpo (o movimento das águas). Cantam pontos que falam de "Ogum na beira do rio, lavando a espada na correnteza" — porque para este falangeiro, a purificação é um ato de guerra contra a estagnação.
Exu Tranca-Ruas: O Guardião que Abre Fechando
Mas que seria de um rio sem margens? Que seria de um caminho sem limites definidos? É aqui que Exu Tranca-Ruas — nome que muitos confundem com simples "bloqueio" — revela sua genialidade estratégica. "Trancar" não significa impedir; significa selecionar com sabedoria. Assim como as comportas de uma represa controlam o fluxo da água para que ela não destrua a cidade abaixo, Tranca-Ruas "fecha" os acessos indevidos para que a energia de Ogum Yara flua com direção e propósito.
Na 7ª Falange, sua atuação é particularmente sutil e poderosa:
- Tranca os caminhos da intriga: Quando demandas são lançadas através de fofocas, calúnias ou palavras venenosas (energias "líquidas" que se infiltram como água em rachaduras), Tranca-Ruas posiciona-se nas encruzilhadas da comunicação, impedindo que as palavras maliciosas encontrem ouvidos receptivos.
- Protege os pontos de água sagrada: Nas giras onde Ogum Yara atua com oferendas em rios ou cachoeiras, Tranca-Ruas "fecha" o perímetro espiritual, garantindo que nenhuma entidade obscura se alimente das energias liberadas durante o trabalho.
- Equilibra o fluxo: Quando um filho de santo recebe muita energia de uma vez (como uma enchente espiritual), Tranca-Ruas "fecha" temporariamente certos canais para que a pessoa não seja arrastada pela correnteza da transformação — um ato de misericórdia disfarçado de restrição.
Seu tridente não aponta para o chão, mas para as quatro direções — marcando os limites sagrados onde a energia de Ogum Yara pode operar em segurança. Quando incorporado, seus movimentos são firmes, quase dançantes: um passo para frente (abertura), um passo para trás (fechamento), sempre mantendo o equilíbrio entre o permitir e o proteger.
A Sinergia das Águas e dos Portais: Como Trabalham Juntos Hoje
A magia da 7ª Falange reside na dança perfeita entre a fluidez e a estrutura. Ogum Yara e Exu Tranca-Ruas não são complementares — são interdependentes, como o rio e suas margens:
- Nos trabalhos de descarrego emocional: Quando alguém carrega mágoas profundas (águas estagnadas da alma), Ogum Yara mergulha na emoção para dissolvê-la, enquanto Tranca-Ruas "fecha" as portas por onde novas mágoas poderiam entrar durante o processo. O resultado não é apenas alívio — é renovação completa do sistema emocional.
- Na proteção de negócios ligados à água: Bares, restaurantes, pescarias, até mesmo clínicas de hidroterapia — locais onde a energia líquida predomina recebem a dupla proteção desta falange. Ogum Yara purifica a energia do local; Tranca-Ruas impede que inveja ou sabotagem "entrem pela porta dos fundos".
- Nos rituais de lua cheia junto aos rios: Muitos terreiros realizam giras especiais nas margens dos rios durante luas cheias, quando a energia das águas está mais receptiva. Ogum Yara comanda os trabalhos de cura e desmanche de magias; Tranca-Ruas posiciona-se nas encruzilhadas próximas, garantindo que nenhuma energia negativa interfira no ritual sagrado.
A Lição das Águas em Movimento
Num mundo onde somos ensinados a ser "duros como pedra" ou "moles como água", a 7ª Falange oferece uma terceira via: ser forte como a correnteza. Ogum Yara nos ensina que a verdadeira força não está na rigidez, mas na capacidade de fluir sem perder a direção. E Tranca-Ruas nos lembra que a liberdade só existe dentro de limites conscientemente escolhidos — não prisões, mas margens que permitem ao rio cumprir seu destino.
Quando Ogum Yara canta em terreiros humildes do Brasil profundo, sua mensagem ecoa nas almas sedentas:
"Filho, não temas mergulhar nas águas turvas do teu passado.
Minha espada não corta a água — ela separa o que é teu do que te foi imposto.
E enquanto eu trabalho nas profundezas, Tranca-Ruas vigia as margens.
Nada entrará sem permissão. Nada sairá sem transformação."
E quando Tranca-Ruas ri com seu riso rouco de quem conhece todos os atalhos da existência, ele sussurra:
"Pensam que tranco para aprisionar?
Tranco para que a correnteza de Ogum Yara não se perca em desvios.
Tranco para que tua cura seja completa.
Abro quando a hora é certa — e fecho quando a proteção é necessária.
Este é meu juramento como Exu de Ogum: servir com sabedoria."
Na 7ª Falange, aprendemos que até o guerreiro mais forte precisa das águas para saciar sua sede — e que até a correnteza mais livre precisa de margens para chegar ao mar. Juntos, Ogum Yara e Exu Tranca-Ruas tecem a teia sagrada onde a transformação acontece não com violência, mas com a força inevitável da maré alta: suave, persistente, e absolutamente incontornável.