A Carta que as Marés Escrevem no Coração: Iemanjá Fala à Filha de Água Salgada
A Carta que as Marés Escrevem no Coração: Iemanjá Fala à Filha de Água Salgada
Há cartas que não são escritas com tinta, mas com espuma. Não são seladas com cera, mas com o beijo salgado da maré alta. E não são entregues por correios terrenos, mas pelo suspiro do vento que carrega o cheiro de iodo e jasmim até o travesseiro de quem chora em silêncio. Esta é uma dessas cartas. Ditada pelas ondas, transcrita pelo luar sobre a água, endereçada a você — filha de colo endurecido, de olhar que fere antes de sentir, de coração que guarda tesouros sob camadas de coral afiado. Mãe Iemanjá não lhe escreve para elogiar. Escreve para reconhecer. E no reconhecimento, curar.
"Filha, você que é tão forte..."
Essas primeiras palavras não são um elogio. São um diagnóstico divino. Iemanjá não diz "você é forte" como quem entrega uma medalha. Diz como quem aponta para uma rocha no meio do mar: "Veja — você resiste às tempestades. Mas quantas vezes confundiu resistência com solidão?"
Sua força, filha, não foi dada para erguer muralhas. Foi dada para sustentar berços. Para segurar as mãos trêmulas dos que naufragam. Para ser o porto quando o mundo vira tempestade. Mas você, em sua bravura ferida, transformou essa força em revolta — e a revolta em prisão. A maré sobe e desce; você, teimosa, quis ser o penhasco que nunca cede. Não percebeu que até as pedras mais duras, com o tempo, são polidas pelo mar. Não quebradas — transformadas.
A Mãe das Águas não pede que você seja frágil. Pede que seja fluída. Que saiba quando recuar como a maré baixa para depois avançar com a força da ressaca. Sua ira tem lugar sagrado — mas deve ser canalizada para defender os pequenos, os inocentes, os que não têm voz. Não para alimentar o fogo que queima até você mesma.
O Orgulho que Afoga e a Vingança que Seca
"Solte o orgulho", diz Ela. E não é um pedido de humilhação. É um convite à leveza.
Você carrega o orgulho como se fosse coroa — mas não vê que seus espinhos furam seu próprio couro cabeludo. Orgulho não é dignidade. Dignidade é saber seu valor sem precisar provar aos outros. Orgulho é a máscara que usamos quando tememos não ser amados como somos. E Iemanjá, que viu impérios afundarem sob as ondas, sabe: nenhum trono de areia resiste à maré.
E a vingança... ah, filha. Você pensa que a vingança é justiça temperada com fel. Mas Iemanjá, que conhece cada naufrágio, cada corpo devolvido à costa, sussurra uma verdade cruel: "A vingança não mata o inimigo — mata o amor que ainda resta em você." Cada ato de retaliação é um balde d'água jogado no fogo sagrado do seu coração. Um dia, ao buscar calor, encontrará apenas cinzas. E os amores verdadeiros — aqueles que curam, que constroem, que perdoam sem esquecer — fugirão assustados dessa terra seca.
Suas Ondas e Minhas Ondas: A Dança das Dores que Vêm e Vão
"Sei que sua vida anda como minhas ondas." Aqui, Iemanjá não minimiza sua dor. Compartilha-a.
Você olha para o mar e vê caos: ondas que quebram sem razão, recuam sem aviso, avançam sem pedir licença. Mas quem entende as marés sabe: há ritmo na aparente desordem. A onda que recua não está fugindo — está se preparando para voltar com mais força. A espuma que morre na areia não é fracasso — é entrega necessária.
Seus problemas vêm e vão como minhas ondas, diz Ela. Mas atenção: a onda passa. A água permanece. Sua essência — aquela que eu criei com carinho de mãe — não se dissolve na crise. É a água salgada que, mesmo agitada, continua sendo mar. Quando a dor bater, não se identifique com a espuma passageira. Lembre-se: você é o oceano. Profundo. Misterioso. Capaz de abrigar vida mesmo nas trevas das fossas abissais.
E sim — suas dores são minhas. Não como fardo, mas como comunhão. Quando uma de minhas filhas sangra, o mar inteiro salga-se um pouco mais. Não para afogar a ferida, mas para esterilizá-la. O sal arde — mas impede que a infecção se espalhe. Minha dor por você não é fraqueza maternal. É alquimia divina.
Lapidar a Teimosia com Água Doce
"Não pense que é fácil lapidar sua teimosia, sua arrogância..." Que honestidade divina! Iemanjá não romantiza sua missão. Ela admite: você é pedra bruta. Dura. Cheia de arestas que machucam quem ousa se aproximar.
Mas veja o milagre das águas: não é o martelo que transforma a pedra. É o gotejar contínuo. É a paciência do rio que, em milênios, abre cânions na montanha. Minha doçura não é fraqueza, filha. É a força mais poderosa do universo — aquela que transforma sem quebrar.
E sobre o amor que "faz sofrer"... aqui Iemanjá revela a ferida mais profunda: não é o amor que dói. É sua insistência em plantar roseiras em terreno de sal. Você sabe, no fundo do seu ser, que certas pessoas não pertencem ao seu jardim. Mas insiste. Por orgulho. Por medo de ficar só. Por acreditar que amar é sofrer — quando na verdade, amar é florescer junto.
Você é difícil de conquistar não por capricho, mas por autopreservação ancestral. Mas quando abre o coração? Ah... quando escolhe amar, carrega no colo como eu carrego meus filhos Orixás — com força de maré e ternura de lua cheia. Esse é seu dom mais sagrado: não amar qualquer um, mas amar profundamente quem merece seu colo.
A Rainha que Precisa de Bajulação — e a Mãe que Oferece Verdade
"Tens a grandiosidade de uma rainha. Gostas de bajulações." Iemanjá não julga. Compreende.
Você nasceu para reinar — sobre seu lar, seus afetos, seu espaço sagrado. Mas confundiu reverência com adulação vazia. Busca elogios como se fossem oferendas que sustentam seu trono. E isso a torna vulnerável a lisonjas interesseiras.
Mas ouça: "Saiba que sempre irei bajular você, minha filha." Não com palavras ocas. Com atos. Minhas ondas que acariciam seus pés na areia são minha bajulação. O luar prateando sua pele à beira-mar é meu elogio. O concha rara que encontra depois de dias de busca é minha homenagem. Eu não bajulo seu ego — bajulo sua essência. E nisso reside a diferença entre o veneno e o remédio.
O Ciúme que Afoga e a Fala que Fere
"Tens que vencer este ciúme, essa mania de ser possessiva..." Aqui, a Mãe das Águas toca na ferida que mais afasta os amores: você quer segurar a água com as mãos. Quanto mais aperta, mais escapa.
Ciúme não é amor. É medo disfarçado de posse. E você, filha do mar, deveria saber: o oceano não prende os peixes. Deixa-os nadar livres — e todos voltam para seu abraço porque nele encontram vida, não prisão.
E suas palavras... ah, suas palavras são como conchas afiadas jogadas sem mira. Machucam. E pior: muitas vezes você sabe que machucam — e não se importa. Não por maldade, mas por orgulho ferido que prefere ferir primeiro. Iemanjá não pede que você cale sua verdade. Pede que você pese suas palavras como pesa as pérolas: não pela beleza superficial, mas pelo valor que deixam na alma de quem as recebe.
Minha Sereia que Não Acredita em Seu Brilho
"Você é minha sereia. Aquela que conquista todos que quer. Embora não acredite em seu potencial."
Esta é a maior traição que você comete contra si mesma: duvidar do próprio encanto. Você olha no espelho e vê falhas. Iemanjá olha para você e vê o que viu em si mesma no primeiro dia da criação: a beleza que sustenta mundos.
Você cuida dos pequeninos com um carinho que esconde sob grosseria. Sua paciência é curta — mas seu colo é largo. Quem te conhece de verdade sabe: seu temperamento muda como as marés porque você sente tudo. Não é instabilidade — é profundidade emocional que poucos sabem navegar. E os que ficam, ficam não apesar das suas marés, mas por causa delas — porque aprenderam que depois da ressaca vem a calmaria mais doce.
Quando o Problema Atingir: O Ritual da Volta para Casa
"Olhe o mar. Escute meu canto. Sinta minhas areias entre seus pés."
Iemanjá não lhe dá fórmulas mágicas. Dá presença. O ritual mais poderoso não é complicado: é simplesmente lembrar-se de quem você é.
Quando a dor vier — e virá, porque viver é navegar em mar aberto — não corra para templos distantes. Volte para a praia de sua alma. Sente-se. Deixe a areia entrar em seus sapatos. Ouça o ritmo das ondas — não como barulho, mas como batida cardíaca do planeta. Respire fundo o cheiro de iodo e vida.
E então sinta: o mar não lhe dará respostas prontas. Dará espaço. O espaço onde a revolta se dissolve em lágrimas salgadas. Onde o orgulho se afoga na imensidão que lembra: você é pequena diante do cosmos — e isso é libertador, não humilhante. Onde a vingança perde o sabor diante da eternidade das águas.
E quando você estiver pronta — não antes — eu virei. Não como milagre, mas como maré alta. Lavarei seu corpo com espuma de perdão. Curarei suas feridas de amor com água de lua. Aconchegarei sua cabeça em meu colo de areia morna. E sussurrarei o que toda filha precisa ouvir:
"Você é minha. Sempre foi. Sempre será. Nada pode parar a fúria das ondas quando vão em busca do que é seu — e você, minha filha teimosa, é minha. E eu sou sua. Até o fim dos tempos."
P.S. — Para a Filha que Lê Esta Carta com Lágrimas nos Olhos
Se estas palavras tocaram algo em você — se você se reconheceu na teimosia, no orgulho, na força mal direcionada — saiba: não é coincidência. Iemanjá não escreve cartas para todos. Escreve para quem está pronta para ouvir.
Hoje, ao anoitecer, vá até a água mais próxima — um rio, uma lagoa, até uma torneira aberta com intenção. Lave as mãos devagar. Sinta a água escorrendo entre seus dedos. E diga em voz baixa:
"Mãe, eu solto o que me afoga.
Ensina-me a fluir sem perder minha força.
A amar sem prender.
A ser rainha sem coroa de espinhos.
E quando eu esquecer quem sou,
manda uma onda para me lembrar:
eu sou filha do mar.
E o mar sempre volta para casa."
Ensina-me a fluir sem perder minha força.
A amar sem prender.
A ser rainha sem coroa de espinhos.
E quando eu esquecer quem sou,
manda uma onda para me lembrar:
eu sou filha do mar.
E o mar sempre volta para casa."
Axé, filha. Axé nas águas que curam. Axé na mãe que nunca abandona. Axé em você — sereia de coração partido e alma inteira — que um dia entenderá: suas ondas turbulentas não são defeito. São a prova de que dentro de você habita um oceano. E oceanos não foram feitos para serem mansos. Foram feitos para viver.