quinta-feira, 30 de março de 2023

O QUE É SER UM INDIVÍDUO ? - OSHO

 

O QUE É SER UM INDIVÍDUO ? - OSHO



"Na sociedade, existe uma profunda expectativa de que você se comporte exatamente como todos os demais. No momento em que se comporta de forma um pouco diferente, você passa a ser um sujeito estranho, e as pessoas têm muito medo de estranhos.

As pessoas sempre querem participar de um grupo ao qual se ajustem.

Nesta sociedade, ninguém aceita a si mesmo. Todo mundo se condena. Esse é o estilo de vida da sociedade: condenar-se. E, se você não está se condenando, se está se aceitando do jeito que é, você tem que se afastar da sociedade.

E a sociedade não tolera ninguém que saiu do rebanho, porque ela vive de números; é uma política de números. Quando há muitos números, as pessoas se sentem bem. Números grandes fazem com que as pessoas sintam que tem de estar certas - elas não podem estar erradas, milhões de pessoas estão com elas. E, quando ficam sozinhas, grandes dúvidas começam a vir à tona: Ninguém está comigo. O que garante que estou certo?

É por isso que eu digo que, neste mundo, ser um indivíduo é o maior sinal de coragem.

Para ser um indivíduo, é preciso o mais destemido dos treinamentos: “Não importa que o mundo inteiro esteja contra mim. O que importa é que a minha experiência é válida. Eu não me importo com os números, com quantas pessoas estão comigo. Eu me importo com a validade da minha experiência — se estou simplesmente repetindo as palavras de outra pessoa, como um papagaio, ou se a fonte das minhas afirmações é a minha própria experiência. Se é a minha própria experiência, se isso é parte do meu sangue, dos meus ossos, do meu âmago, então o mundo inteiro pode pensar de outro jeito; ainda assim, eu estou certo e eles estão errados. Não importa, não preciso da aprovação deles para sentir que estou certo. Só aqueles que dependem das opiniões de outras pessoas precisam do apoio dos outros.

Mas é assim que a sociedade humana tem sido até agora. É assim que ela mantém você no rebanho. Se os outros estão tristes, você tem que ficar triste; se sofrem, você tem que sofrer. O que quer que eles sejam, você tem que ser também. Não se permitem diferenças, porque as diferenças acabam levando para o indivíduo, para o único, e a sociedade tem muito medo do indivíduo e da unicidade. Isso significa que alguém ficou independente do grupo, que essa pessoa não dá a mínima para o grupo. Seus deuses, seus templos, seus padres, suas escrituras, tudo ficou sem sentido para ela.

Agora ela tem seu próprio ser e seu próprio jeito, seu próprio estilo — de viver, morrer, celebrar, cantar, dançar. Ela chegou em casa. E ninguém pode chegar em casa junto com a multidão. Só se pode chegar em casa sozinho."

Osho em O Livro dos Segredos VI

quarta-feira, 29 de março de 2023

PENA E COMPAIXÃO - PREM BABA

 

PENA E COMPAIXÃO - PREM BABA



Pergunta: Qual a diferença entre e pena e a compaixão?

Prem Baba: É a mesma diferença entre o dia e a noite; entre luz e trevas. 
A pena é egoística e a compaixão é altruística. 

Você somente sente dó de si mesmo – o outro é um reflexo de algum aspecto seu. Ao sentir pena, você não enxerga o outro e não o respeita. Você não está interessado nele – você quer somente se livrar do seu problema, porque o sofrimento do outro está lhe incomodando. 
Ele está espelhando o seu próprio sofrimento, o qual você se recusa a enxergar.

As lágrimas da pena são superficiais porque nascem de uma máscara do bondoso e caridoso. Essa máscara encobre o egoísmo. 
Por trás dela existe um congelamento, uma impermeabilização que te impede de fazer empatia e colocar-se verdadeiramente no lugar do outro. 

Porque você só faz empatia se houver amor e, se existe amor pelo outro, você respeita aquilo que ele precisa experienciar. 

Se você ama as pessoas na rua, coloque-se no lugar delas e verá que dar dinheiro não ajuda em nada. Em algum caso ou outro pode ser que ajude, mas, na maioria das vezes, você está apenas alimentando o vício de pedir e a ilusão de impotência, entre muitas outras fantasias que fazem com que elas fiquem nesse lugar.

Se o amor está transbordando do seu coração e se você realmente se importa com o outro, encontre um meio para ele se levantar. A compaixão é desinteressada. Você quer realmente ver o outro feliz; você quer vê-lo brilhar, respeitando o processo dele.

E como você se move da pena para a compaixão? Libertando-se da projeção."

Prem Baba em Satsang

RELACIONAMENTOS E CONSCIÊNCIA - ECKHART TOLLE

 

RELACIONAMENTOS E CONSCIÊNCIA - ECKHART TOLLE





"Quando os egos se encontram, quer em relacionamentos pessoais quer em organizações e instituições, mais tarde ou mais cedo acontecem coisas "más", dramas, dramas de uma ou de outra espécie, sob forma de conflitos, problemas, lutas de poder, violência física ou emocional, e outras coisas semelhantes. Isto inclui males coletivos, como por exemplo a guerra, o genocídio e a exploração - tudo devido à inconsciência acumulada. Além disso, muitos tipos de doenças são causadas pela resistência permanente do ego, que cria restrições e bloqueios no caudal da energia que percorre o corpo. Quando você se liga novamente ao Ser e deixa de ser governado pela sua mente, deixa de criar essas coisas. Deixa de criar ou de participar em dramas.(...)

O ego sempre quer alguma coisa das pessoas ou das situações. No caso dele há sempre um plano oculto, um sentimento de "ainda não é o bastante", de insuficiência e falta, que precisa ser atendido. Ele usa as pessoas e situações para conseguir o que deseja e, até mesmo quando é bem-sucedido, nunca fica satisfeito por muito tempo.

Em geral, vive frustrado com seus objetivos - na maior parte do tempo, a lacuna entre o "eu quero" e "o que acontece" torna-se uma fonte constante de aborrecimento e angústia.

O medo de não ser ninguém, o medo da não-existência, o medo da morte. Todas as suas ações, enfim, destinam-se a eliminar esse temor.

Por que o medo? Porque o ego surge pela identificação com a forma e, na verdade, ele sabe que nenhuma forma é permanente, que todas elas são transitórias.

Assim, há sempre um sentimento de insegurança ao seu redor, mesmo que externamente ele pareça confiante.(...)

Sempre que dois ou mais egos se juntam, sucede-se algum tipo de drama. E mesmo que você viva completamente só, continuará a criar o seu próprio drama. Quando você se lamenta, isso é um drama. Quando se sente culpado ou ansioso, isso é um drama. Quando deixa que o passado ou o futuro obscureçam o presente, está a criar tempo, tempo psicológico - a matéria-prima do drama. Sempre que não honra o momento presente, permitindo que ele seja, está a criar um drama.(...)

Em determinados casos, precisamos nos proteger ou defender uma pessoa dos atos prejudiciais de alguém. No entanto, temos que ter cuidado para não transformar isso numa missão de "erradicação do mal", uma vez que, provavelmente, nos converteremos na própria coisa que estamos combatendo. Lutar de modo inconsciente pode nos levar à inconsciência - o comportamento egóico desajustado - nunca seja vencida pelo ataque.

Mesmo se derrotarmos o oponente, ela se transferirá para nós ou esse adversário reaparecerá num novo disfarce. Nós fortalecemos tudo aquilo que combatemos, enquanto todas as coisas a que resistimos persistem.

Reconheça o ego pelo que ele é: um distúrbio coletivo, a insanidade da mente humana. Quando o identificamos pelo que ele é, deixamos de interpretá-lo erroneamente como a identificação de uma pessoa. E temos mais facilidade em não adotar uma atitude reativa em relação a ele. Já não o tomamos como algo pessoal. Não existe queixa, culpa, acusação nem ação equivocada. Ninguém está errado. É apenas o ego em alguém, só isso.(...)

Um dia, a meio de uma discussão, você apercebe-se de súbito que tem escolha e pode decidir deixar de lado a sua própria reação... só para ver o que acontece. Você rende-se.

Não quero dizer pôr de lado a reação apenas a nível verbal, dizendo «Pronto, tens razão» com um ar que expressa «Estou acima de toda esta inconsciência infantil». Fazê-lo é apenas deslocar a resistência para outro nível, com a mente egocêntrica ainda no comando, a invocar superioridade. Estou a falar de abandonar todo o campo energético mental e emocional que estava a lutar pelo poder e que você tem dentro de si.

O ego é matreiro, por isso você tem de estar bem alerta, bem presente e ser totalmente honesto consigo mesmo para ver se deixou verdadeiramente de se identificar com uma posição mental e, desse modo, se libertou da sua mente.

Se você se sentir de repente muito leve e profundamente em paz, é um sinal inconfundível de que se rendeu verdadeiramente. De seguida, observe o que acontece à posição mental da outra pessoa quando você deixa de lhe conceder energia através da resistência. Quando a identificação com posições mentais está fora do caminho, começa a verdadeira comunicação.

Tome consciência dos pensamentos que lhe ocorrem. Separe-os da situação, que é sempre neutra - ela é como é.
Existe a circunstância ou o fato, e você terá seus pensamentos a respeito deles. Em vez de criar histórias, atenha-os aos fatos.

Por exemplo: "Estou arruinado" é uma história. Ela limita a pessoa e a impede de tomar uma providência eficaz. "Tenho 50 centavos na minha conta" é um fato.
Encarar os fatos é sempre fortalecedor. Tome consciência de que, na maioria das vezes, suas emoções são criadas pelo que você pensa - observe essa ligação. Em vez de ser seus pensamentos e suas emoções, seja a consciência por trás deles. A causa primária da infelicidade nunca é a situação, mas nossos pensamentos sobre ela.."

Eckhart Tolle em A Prática do Poder do Agora

terça-feira, 28 de março de 2023

CÍRCULOS - OSHO

 

CÍRCULOS - OSHO



“A vida tem círculos de sete anos, ela se move em círculos de sete anos exatamente como a terra faz uma rotação em seu eixo em vinte e quatro horas. Ninguém sabe porque não são nem vinte e cinco nem vinte e três horas. Não há nenhum jeito de se responder isso. É simplesmente um fato. Assim, não me pergunte porque a vida se move em círculos de sete anos. Eu não sei. O máximo que eu sei é que ela se move em círculos de sete anos. E se você compreender esses círculos de sete anos, você compreenderá uma grande coisa sobre o crescimento humano.

Os primeiros sete anos são os mais importantes porque os alicerces da vida estão sendo assentados. É por isso que todas as religiões estão muito preocupadas em agarrar as crianças o mais rápido possível. Os judeus circuncidam as crianças. Que bobagem! Mas eles estão carimbando a criança como uma judia. Essa é uma maneira primitiva de carimbar. Ainda se faz isso com o gado aqui nas redondezas.

Aqueles primeiros sete anos são os anos em que você é condicionado, é preenchido com todos os tipos de idéias que irão atormentá-lo ao longo de toda a sua vida, que irão distraí-lo de sua potencialidade, que irão corrompê-lo, que nunca irão lhe permitir ver claramente. Elas sempre virão como nuvens diante de seus olhos e irão fazer com que tudo fique confuso. As coisas são claras, muito claras. A existência é absolutamente clara. Mas os seus olhos têm camadas e mais camadas de poeira.

E toda essa poeira foi arranjada nos primeiros sete anos de sua vida, quando você era tão inocente, tão confiante, que qualquer coisa que lhe fosse dita você aceitava como sendo verdadeira. E mais tarde, será muito difícil você descobrir tudo aquilo que entrou em seus alicerces. Terá se tornado quase parte de seu sangue, ossos, de sua própria medula. Você perguntará mil outras questões, mas você nunca perguntará a respeito dos alicerces básicos de suas crenças.

A primeira expressão de amor para com a criança é deixá-la absolutamente inocente em seus primeiros sete anos, sem condicionamento, deixá-la por sete anos completamente selvagem, uma pagã. Ela não deveria ser convertida ao hinduismo, ao islamismo, ao cristianismo. Qualquer um que esteja tentando converter a criança, não tem compaixão, é cruel, está contaminando a própria alma de um viçoso recém-chegado. Antes mesmo que a criança tenha formulado perguntas, ela já terá recebido respostas com filosofias , dogmas e ideologias pré-fabricadas. Essa é uma situação muito estranha. A criança não perguntou a respeito de Deus e você já está lhe ensinando. Por que tanta impaciência? Espere!

Se algum dia a criança demonstrar interesse por Deus e começar a perguntar a respeito, então tente dizer a ela não apenas a sua idéia sobre Deus, porque ninguém tem qualquer monopólio. Coloque diante dela todas as idéias de Deus que estiveram presentes em diferentes povos, em épocas diferentes, por religiões, culturas e civilizações diferentes. E lhe diga: ‘Você pode escolher dentre essas aquela que mais lhe atrai. Ou você pode inventar a sua própria, se nenhuma estiver adequada. Se todas lhe parecerem defeituosas, e você achar que pode ter uma idéia melhor, então invente a sua própria. Ou se você achar que não há jeito de inventar uma idéia sem falhas, então abandone toda essa história, ela não é necessária. Um homem pode viver sem Deus.’

Não há qualquer necessidade de que o filho tenha que concordar com o pai. Na verdade parece muito melhor que ele não tenha que concordar. É assim que a evolução acontece. Se toda criança concordar com o pai, então não haverá qualquer evolução, porque o pai terá concordado com seu próprio pai, e todo mundo estará no ponto em que Deus deixou Adão e Eva: nus e expulsos do jardim do Éden. Todo mundo estará lá. O homem tem evoluído porque os filhos têm discordado de seus pais, dos pais de seus pais e de todas as tradições. Toda essa evolução é uma tremenda divergência com o passado. Quanto mais inteligente você for, mais você irá discordar. Mas os pais valorizam as crianças que concordam e condenam as que discordam.

Até os sete anos, se a criança puder ser deixada inocente, não corrompida pelas idéias dos outros, assim tornar-se-á impossível distraí-la de seu crescimento potencial.Os primeiros sete anos da criança são os mais vulneráveis. E elas estão nas mãos dos pais, dos professores, dos padres….

Como defender as crianças dos pais, dos padres e dos professores é uma questão de tamanha proporção que parece quase impossível de se fazer. Não é uma questão de ajudar a criança. A questão é proteger a criança. Se você tiver uma criança, proteja-a de si mesmo. Proteja a criança dos outros que possam influenciá-la, pelo menos até os sete anos, proteja-a. A criança é como uma pequena plantinha, fraca e suave. Um simples vento forte pode destruí-la, qualquer animal pode comê-la. Você põe um fio protetor ao redor dela, mas não a aprisiona, você está simplesmente protegendo-a.Quando a planta estiver maior, o fio será removido.

Proteja a criança de todo tipo de influência de modo que ela possa permanecer ela mesma. E isso é só uma questão de sete anos, porque então o primeiro círculo estará completo. Aos sete anos ele estará bem enraizado, centrado, forte o suficiente. Você não sabe o quanto uma criança de sete anos pode ser forte porque você só tem visto crianças corrompidas. Elas carregam os medos e a covardia de seus pais, mães e familiares. Elas não são elas mesmas.

Se uma criança permanecer sem ser corrompida por sete anos… Você ficará surpreso ao encontrar tal criança. Ela será tão afiada como uma espada. Seus olhos serão claros, seus insights serão claros. E você verá nela uma tremenda força que você não poderá encontrar nem mesmo num adulto de setenta anos.
Se você é um pai (ou mãe), você precisará muito dessa coragem para não interferir. Abra portas para direções desconhecidas de modo que a criança possa explorá-las. Ela não conhece o que ela tem dentro dela, ninguém sabe. Ela terá que tatear no escuro. Não faça com que ela tenha medo do escuro, não faça com que ela tenha medo do fracasso, não faça com que ela tenha medo do desconhecido. Dê a ela suporte. Quando ela estiver indo para uma jornada desconhecida, ofereça a ela todo o seu suporte, com todo o seu amor, com todas as suas bênçãos.

Não deixe que ela seja afetada pelos seus medos. Você pode ter medos, mas mantenha-os consigo mesmo. Não descarregue esses medos em cima da criança, porque isso será interferência."
(continua...)

Osho em From the Dark to Light


"Depois dos sete anos, no próximo círculo de sete anos, dos sete aos quatorze, algo novo é acrescentado à vida: os primeiros alvoroços da energia sexual da criança. Mas elas são apenas uma espécie de ensaio.

Ser pai é uma tarefa difícil. Assim, a não ser que você esteja pronto para assumir tal tarefa difícil, não se torne um pai. As pessoas simplesmente seguem se tornando pais e mães sem saber o que estão fazendo. Você está trazendo uma vida à existência e todo o cuidado do mundo será necessário.

Agora, quando a criança começa a brincar com seus ensaios sexuais, é o tempo em que os pais mais interferem, porque foi assim que fizeram com eles. Tudo o que eles sabem é o que foi feito com eles, assim eles seguem fazendo o mesmo com as suas crianças. As sociedades não permitem ensaio sexual, pelo menos não permitiram até o século XX, exceto nas duas e três últimas décadas em alguns países muito avançados. Agora já existem escolas mistas para as crianças, mas em um país como a Índia, mesmo agora, a educação mista começa a surgir apenas no nível universitário.

O menino de sete anos e a menina de sete anos não podem estar no mesmo internato. E este é o momento para eles, sem qualquer risco, sem perigo de gravidez, sem que quaisquer problemas surjam para suas famílias; este é o momento em que lhes deveriam ser permitidas todas as brincadeiras.

Sim, isso terá uma conotação sexual, mas será só um ensaio, não se trata de um drama teatral verdadeiro. E se você não permitir a eles nem mesmo esse ensaio, de repente então, um dia a cortina se abrirá e o verdadeiro drama começará… E eles não saberão o que está acontecendo e não haverá nem mesmo aquela pessoa escondida no palco para lhes soprar o que devem fazer. Você terá bagunçado a vida deles completamente.

Esses sete anos, o segundo círculo da vida, são significantes como um ensaio. Eles se encontrarão, se misturarão, brincarão e se conhecerão. E isso ajudará à humanidade a se livrar de quase noventa por cento das perversões. Se às crianças dos sete aos quatorze for permitido estarem juntas, nadarem juntas, estarem nuas juntas, noventa por cento das perversões e noventa por cento das pornografias irão simplesmente desaparecer. Quem irá dar atenção a essas coisas?

Quando um garoto conheceu tantas garotas nuas, que interesse uma revista tipo Playboy poderá ter para ele? Quando uma garota tiver visto tantos garotos nus, eu não vejo qualquer possibilidade de existir curiosidade a respeito do outro. Isso simplesmente desaparecerá. Eles irão crescer juntos naturalmente, não como duas espécies diferentes de animais. É assim que eles crescem agora, como duas espécies diferentes de animais. Eles não pertencem à mesma espécie humana, eles são mantidos separados. Mil e uma barreiras são criadas entre eles, e não lhes permitem qualquer ensaio de sua vida sexual que está chegando…

Se você tiver feito o dever de casa direitinho, se você tiver brincado com sua energia sexual exatamente com o espírito de um desportista (e naquela idade este é o único espírito que você poderia ter), você não se tornará um pervertido, um homossexual. Todo tipo de coisas estranhas não virão à sua cabeça, porque você está se movendo naturalmente com o outro sexo e o outro sexo está se movendo com você. Não haverá qualquer bloqueio e você não estará fazendo nada errado com quem quer que seja. Sua consciência estará clara porque ninguém pôs nela idéias do que é certo e do que é errado. Você simplesmente está sendo o que você é.

Dos quatorze aos vinte e um o seu sexo amadurece. E isso é significante para se entender: se o ensaio tiver sido bom no período dos sete aos quatorze quando o sexo amadurece, acontece uma coisa muito estranha que você nem mesmo deve ter pensado a respeito, porque não lhe foi dada a oportunidade. Eu disse a você que o segundo círculo de sete anos, dos sete aos quatorze, deu a você um vislumbre de antes da peça teatral. O terceiro círculo de sete anos da a você um vislumbre do que vem depois.Você está ainda com garotas ou garotos, mas agora uma nova fase começa em seu ser: você começa a se apaixonar.

Não é ainda um interesse biológico. Você não está interessado em procriar, você não está interessado em se tornar marido ou esposa. Esses são os anos dos jogos românticos. Você está mais interessado na beleza, no amor, na poesia, na escultura, que são fases diferentes de romantismo."

(continua...)
Osho em From the Dark to Light


"Dos vinte e um aos vinte e oito é um tempo em que eles podem se acertar. Eles podem escolher um companheiro. E eles são capazes de escolher agora, através de toda a experiência dos dois círculos passados eles podem escolher o companheiro certo. Não há mais ninguém que possa fazer isso por você. Isso é algo como um pressentimento. Nenhuma aritmética, nenhuma astrologia, nenhuma quiromancia, nenhum I-Ching poderão fazer isso.

Isso é um pressentimento: entrando em contato com muitas, muitas pessoas, de repente alguma coisa dá um clique que nunca deu com qualquer outra pessoa. E isso clica com tanta certeza e tão absolutamente, que você não pode nem mesmo duvidar. Mesmo se você tentar duvidar, você não conseguirá. A certeza é tão tremenda. Com esse clique vocês se acertam.

Entre os vinte e um e os vinte e oito, em algum lugar, se tudo correr bem do jeito que eu estou dizendo, sem interferência de outros, então vocês se acertam.

E o período mais agradável da vida vem dos vinte e oito aos trinta e cinco: o mais alegre, o mais pacífico e harmonioso, porque duas pessoas começam a se derreter e a se fundir uma com a outra.

Dos trinta e cinco aos quarenta e dois, um novo passo, uma nova porta se abre. Se até os trinta e cinco você sentiu profunda harmonia, uma sensação orgástica e tiver descoberto a meditação através disso, então, dos trinta e cinco aos quarenta e dois vocês ajudarão um ao outro a ir mais e mais fundo na meditação sem sexo, porque o sexo neste ponto começa a parecer infantil, juvenil. Quarenta e dois anos é o tempo certo quando a pessoa deveria ser capaz de saber exatamente quem ela é.

Dos quarenta e dois aos quarenta e nove ela vai mais fundo e mais fundo na meditação, mais e mais para dentro de si mesmo, e ajuda o companheiro no mesmo caminho. Eles se tornam amigos. Não mais existe marido e não mais existe esposa. Esse tempo já passou. Isso já deu a sua riqueza para a sua vida. Agora existe alguma coisa mais alta, mais alta que o amor. Isso é amizade, um relacionamento de compaixão para ajudar o outro a ir mais fundo dentro de si mesmo, a se tornar mais independente, a se tornar mais só, como duas árvores altas, separadas mas ainda próximas uma da outra, ou dois pilares num templo suportando o mesmo teto, estando tão próximos e tão separados, tão independentes e tão sós.

Dos quarenta e nove aos cinqüenta e seis essa solitude se torna o foco de seu ser. Tudo no mundo perde o significado. A única coisa significante que permanece é essa solitude.

Dos cinqüenta e seis aos sessenta e três você se torna totalmente o que você está para ser: o florescimento potencial.

Dos sessenta e três aos setenta você começa a ficar pronto para deixar o corpo. Agora você sabe que não é o corpo, você sabe que também não é a mente. O corpo era conhecido como separado de você em algum lugar quando você tinha trinta e cinco anos. Que a mente está separada de você foi conhecido em algum lugar quando você tinha quarenta e nove anos. Agora, tudo mais foi deixado de lado exceto a auto observação. Só a pura consciência, a chama da consciência permanece com você, e isso é a preparação para a morte.

Setenta é a duração de vida natural para o homem. E se as coisas se moverem em seu curso natural, então ele morre com tremenda alegria, em grande êxtase, sentindo-se imensamente abençoado porque a sua vida não foi sem significado e que, pelo menos, ele encontrou o seu lar. E por causa dessa riqueza, dessa realização, ele é capaz de abençoar toda a existência.

Só por estar perto de tal pessoa, quando ela está morrendo, é uma grande oportunidade. Você sentirá, na medida em que ele deixa o corpo, algumas flores invisíveis caindo sobre você. Embora você não possa vê-las, você poderá senti-las.”
Osho em From Darkness to Light

SOBRE O ARREPENDIMENTO - OSHO

 

SOBRE O ARREPENDIMENTO - OSHO



"Seja o que for que você compreenda sobre arrependimento é absolutamente falso. Tente compreender. Quando você se arrepende, você de fato não se arrepende. Quando você se arrepende, você de fato está tentando reparar a imagem. Isso não é arrependimento: é reparação da imagem quebrada, a que você tem de si mesmo.

Por exemplo, você tem tido raiva e tem dito muitas coisas. Mais tarde, quando a raiva se foi, a loucura se foi, você se acalma e olha pra trás. Agora há um problema. O problema é que você sempre se achou um homem muito pacífico, um homem da paz e do amor; sempre imaginou que você não é raivoso. Agora, essa imagem quebrou-se. Seu ego está espatifado: agora você sabe, que seja o que for que você esteve acreditando, provou-se errado. Você tem estado com raiva, você tem estado muito raivoso, e você tem dito coisas que são contra o seu ego. Você despedaçou sua própria auto-imagem. Agora você tem de consertá-la. O único meio de se consertar isso é arrependendo-se. Você vai e se arrepende, você diz coisas boas.

Você diz: “Aconteceu a despeito de mim. Eu jamais quis que fosse assim. Eu estava louco: não estava nos meus sentidos. A raiva me assomou de tal jeito que fiquei quase inconsciente; assim, o que quer que eu tenha dito, perdoe-me, eu nunca quis dizer aquilo. Posso ter dito aquilo, mas nunca quis dizer aquilo.”

O que você está fazendo? Arrependendo-se? Você está simplesmente fazendo um reparo. Você relaxa: quando alguém pede para ser perdoado, tem de ser perdoado. Se o outro não perdoar, então, ele não é um homem bom. O outro estava com raiva sobre a sua raiva, ele estava pensando em se vingar, mas agora você foi pedir perdão. Se ele não perdoar, então, ele não será capaz de se perdoar. Então, é a imagem dele que será quebrada.
E este é o truque que você está usando. Agora, se ele não o perdoar, você é o bom sujeito e ele é o sujeito mau. Agora tudo foi jogado em cima dele.

Este é um truque, um truque bem dissimulado. Se ele não o perdoar, ele é mau. Então, você fica à vontade, sua imagem foi consertada: você jogou toda a culpa nele. Agora, ele se sentirá culpado se não perdoar, pois um homem bom tem de perdoar. Se ele perdoar, é bom para você; se ele não perdoar, então também isso é bom para você. Agora é uma questão para ele decidir.
Isto não é arrependimento."


Osho em Além da Psicologia

O SENTIDO ESPIRITUAL DE UM RELACIONAMENTO AMOROSO - PREM BABA

 

O SENTIDO ESPIRITUAL DE UM RELACIONAMENTO AMOROSO - PREM BABA



O sentido espiritual de um relacionamento amoroso, tirando todo o romantismo, é ser um material de escola que te ensina a amar, a ser livre e a deixar o outro livre. Quando eu digo “ensinar a amar”, uso uma figura de linguagem, porque não é possível aprender a amar – o amor já existe, ele é a fragrância do ser. Mas a relação afetiva gera uma fricção que possibilita remover obstáculos que te impedem de amar. Esse é um assunto bastante delicado e as chances de eu ser mal compreendido são tremendas, mas vamos tentar.

Existem certas lições que você só pode aprender com suas relações amorosas, porque elas são catalizadoras de todas as suas feridas, de tudo aquilo que não está integrado dentro da sua constelação familiar. Todo seu passado é reeditado na relação amorosa para que você tenha a chance de integrá-lo, de curar essas relações familiares que ainda estão, de alguma forma, infringindo dor no seu sistema.

Embora o relacionamento amoroso seja um poderoso instrumento de aprendizado e de cura, ele pode também te levar a um sono. Nesse sentindo, você pode estar apenas repetindo determinados padrões destrutivos (apegos, disputas, projeções, medos) e andando em círculos, deixando de se expandir e crescer. Há que se ter discernimento e sabedoria para identificar quando isso ocorre.

O objetivo maior de um relacionamento amoroso é sustentar o êxtase. É sustentar a conexão da energia sexual com o coração aberto: o encontro de duas correntes positivas, dois sins. Esse encontro aponta a direção da suprema liberdade e só é possível se existir amor e liberdade.

Portanto, isso que eu tenho chamado de novo casamento, não costuma chegar cedo na vida, porque requer certa maturidade, uma compreensão e inclinação para deixar o outro livre – livre inclusive para não te amar se ele não quiser. Essa é a prova final dessa iniciação chamada relacionamento amoroso.

Eu o vejo como uma iniciação espiritual. Você só completa esse ciclo iniciático quando supera a carência afetiva, ou seja, quando se liberta da insegurança, do ciúme e da possessividade. Só assim você consegue de fato, ser livre e deixar o outro livre. Por sua vez, podemos entender a relação amorosa como o próprio remédio para a carência. Dependendo da sua carência, você precisa ficar um tempo X dentro de uma relação ou às vezes precisa ficar sozinho. Não tem uma receita. Isso tem que ser sentido por você – o que você está precisando no momento.

Às vezes você não consegue perceber porque está cego pela própria carência. Por exemplo, você pode estar precisando ficar um tempo sozinho, mas sua carência ainda está tão grande que você não quer sequer parar para pensar se a relação em que você está tem te feito crescer ou se dentro dela, você está apenas andando em círculos, machucando e sendo machucado.

Quando a relação se torna eminentemente destrutiva, sem chances para crescer no amor, na liberdade e no perdão, você tem que ter a coragem de tirar umas férias. Tem que ter coragem de olhar de frente para isso e explorar o medo que talvez você tenha de ficar sozinho. Eu não estou incentivando a separação! Eu estou incentivando você a encarar a verdade; a ser honesto com você e com o outro.

Muitas vezes, você mantém seu relacionamento para poder ter onde projetar suas ilusões. O outro é uma tela em que você projeta seus sonhos e quando ele quer deixar de ser essa tela ou quando você sente que não está mais conseguindo projetar seu sonho nessa tela, você acaba com o relacionamento. Mas você fica ansiosamente aguardando o momento de encontrar outra tela para continuar projetando o seu sonho. Outras vezes, você mantém o seu sonho fazendo do outro um escravo para atender os seus caprichos. Você força o outro a te amar, porque acreditou que se ele fizer do seu jeito, ele te ama. Não se engane: isso significa aprisionar o outro.

Vou te passar uma lição de casa. Se você está com alguém, comece a se perguntar: por que estou nessa relação? O que me mantém aqui? Não tenha medo de ser honesto consigo mesmo. É só a mentira que cai, a verdade nunca cai. Se o que te mantém nessa relação é o amor a Deus e à liberdade é porque você está se expandindo na luz; está crescendo dentro do programa estabelecido pela sua alma. Se for assim, zele por essa relação, firmeza no amor, no perdão, na liberdade e siga em frente. Mas se você está na relação por outras razões, tenha coragem para olhar o que te mantém aí. 
Dê essa passo a seu favor. Estou querendo que você rompa com a mentira e siga se expandindo."
Sri Prem Baba em Satsang

SOBRE A LEI DA ATRAÇÃO - ECKHART TOLLE

 

SOBRE A LEI DA ATRAÇÃO - ECKHART TOLLE



"Quem nós pensamos que somos está intimamente ligado a como nos consideramos tratados pelos outros.

Muitas pessoas se queixam de que não recebem um tratamento bom o bastante. “Não me tratam com respeito, atenção, reconhecimento, consideração. Tratam-me como se eu não tivesse valor”, elas dizem.

Quando o tratamento é bondoso, elas suspeitam de motivos ocultos. “Os outros querem me manipular, levar vantagem sobre mim. Ninguém me ama.”

Quem elas pensam que são é isto: “Sou um pequeno eu’ carente cujas necessidades não estão sendo satisfeitas.”

Esse erro básico de percepção de quem elas são cria um distúrbio em todos os seus relacionamentos. Esses indivíduos acreditam que não têm nada a dar e que o mundo ou os outros estão ocultando delas aquilo de que precisam.

Toda a sua realidade se baseia num sentido ilusório de quem elas são. Isso sabota situações, prejudica todos os relacionamentos. Se o pensamento de falta – seja de dinheiro, reconhecimento ou amor – se tornou parte de quem pensamos que somos, sempre experimentaremos a falta.

Em vez de reconhecermos o que já há de bom na nossa vida, tudo o que vemos é carência.

Detectarmos o que existe de positivo na nossa vida é a base de toda a abundância. O fato é o seguinte: seja o que for que nós pensemos que o mundo está nos tirando é isso que estamos tirando do mundo. Agimos assim porque no fundo acreditamos que somos pequenos e que não temos nada a dar.

Se esse for o seu caso, experimente fazer o seguinte por duas semanas e veja como sua realidade mudará: dê às pessoas qualquer coisa que você pense que elas estão lhe negando – elogios, apreço, ajuda, atenção, etc. Você não tem isso? Aja exatamente como se tivesse e tudo isso surgirá. Logo depois que você começar a dar, passará a receber.

Ninguém pode ganhar o que não dá. O fluxo de entrada determina o fluxo de saída. Seja o que for que você acredite que o mundo não está lhe concedendo você já possui. Contudo, a menos que permita que isso flua para fora de você, nem mesmo saberá que tem. Isso inclui a abundância.

A lei segundo a qual o fluxo de saída determina o fluxo de entrada é expressa por Jesus nesta imagem marcante: “Dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada, sacudida e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.”

A fonte de toda a abundância não está fora de você. Ela é parte de quem você é.

Entretanto, comece por admitir e reconhecê-la exteriormente. Veja a plenitude da vida ao seu redor. O calor do sol sobre sua pele, a exibição de flores magníficas num quiosque de plantas, o sabor de uma fruta suculenta, a sensação no corpo de toda a força da chuva que cai do céu.

A plenitude da vida está presente a cada passo. Seu reconhecimento desperta a abundância interior adormecida. Então permita que ela flua para fora. Só fato de você sorrir para um estranho já promove uma mínima saída de energia. Você se torna um doador. Pergunte-se com frequência: “O que posso dar neste caso? Como posso prestar um serviço a esta pessoa nesta situação?”

Você não precisa ser dono de nada para perceber que tem abundância. Porém, se sentir com frequência que a possui, é quase certo que as coisas comecem a acontecer na sua vida. Ela só chega para aqueles que já a têm.

Parece um tanto injusto, mas é claro que não é. É uma lei universal. Tanto a fartura quanto a escassez são estados interiores que se manifestam como nossa realidade. Jesus fala sobre isso da seguinte maneira: “Pois, ao que tem, se lhe dará; e ao que não tem, se lhe tirará até o que não tem”

Eckhart Tolle em Praticando o Poder do Agora

segunda-feira, 27 de março de 2023

OSHO FALA SOBRE OS UPANISHADS

 

OSHO FALA SOBRE OS UPANISHADS



"Estamos penetrando num mundo dos mais encantados e misteriosos - o mundo dos Upanishads.
Os dias dos Upanishads foram os mais notáveis no campo da busca espiritual. Nunca antes ou depois a consciência humana atingiu tamanhas culminâncias.

AUM                                                      AUM
Purnamadah                                        Aquilo é o Todo.
Purnamidam                                        Isso é o Todo.
Purnat purnamudachyate                    Da Totalidade emerge
Purmasya purnamadaya                      a Totalidade
Purnameva vashishyate                      E a totalidade permanece    

* Isha Upanishad                      

A totalidade é outra coisa; tem outro sabor. A perfeição está no futuro: é o desejo. A totalidade está aqui: é uma revelação. A perfeição tem que ser alcançada e isso, obviamente, leva tempo: precisa ser gradual. Cumpre sacrificar o presente pelo futuro, o hoje pela manhã. Mas o amanhã não chega sempre é o hoje.

A existência ignora o futuro e o passado; só conhece o presente. O agora é o único tempo, o aqui é o único espaço. Se você se abstrair do agora e do aqui, mergulhará em alguma forma de insanidade. Você se fragmentará num inferno. Você ficará dividido: o passado requisitará uma parte de você e o futuro requisitará a outra parte. Você se tornará esquizofrênico, cindido, pulverizado. Sua vida será apenas angústia profunda, temor, ansiedade, tensão. Você não conhecerá a bem-aventurança, não conhecerá o êxtase porque o passado não existe.

As pessoas vivem de lembranças que são meras pegadas na areia; ou projetam sua vida no futuro, que também não existe. O passado já se foi, o presente ainda não chegou - e, entre os dois, a pessoa perde o real, o presente, o agora.

A totalidade é feita do agora. Se você conseguir simplesmente estar aqui, este exato instante trará a revelação! Não gradual, mas súbita - uma explosão!

A palavra Upanishad é tremendamente importante: significa apenas ficar sentado junto ao mestre, uma comunhão. O mestre vive na totalidade; vive e palpita no aqui e agora. Sua existência tem música, tem alegria, tem silêncio absoluto. Sua existência é cheia de luz.

O mero ato de sentar-se em silêncio junto ao mestre já basta porque a presença dele é contagiosa, a presença dele é pujante. O silêncio do mestre se insinua em nosso coração. A presença do mestre funciona como um imã; esse imã nos puxa do pântano do passado e do futuro. Traz-nos para o presente.

Upanishad é comunhão, não comunicação. A comunicação acontece entre cabeças, a comunhão entre corações. Esse é um dos maiores segredos da vida espiritual e nunca, em lugar algum, foi compreendido tão profundamente quanto nos dias dos Upanishads.

Os Upanishads surgiram há cerda de 5 mil anos. Uma comunhão secreta, uma transmissão que prescinde de escrituras e palavras. Upanishad é isto: sentar-se silenciosamente para ouvir não apenas minhas palavras, mas também minha presença; as palavras são o invólucro. Quem se interessa demais pelas palavras não capta o espírito.

Por isso, não valorize muito a palavra. Ouça a pulsação do mundo. Quando o mestre fala, suas palavras brotam de seu íntimo. Elas estão repletas da cor, da luz do mestre. Trazem um pouco do perfume de seu ser. Se você for aberto, vulnerável, receptivo, acolhedor, então elas penetrarão em seu coração e darão início a um processo.

A palavra Upanishad significa aproximar-se de um mestre e só nos aproximamos de um mestre quando estamos fartos de professores, lições dogmas, credos, filosofias, teologias, religiões. É então que procuramos um mestre. E o fazemos pela renúncia. Não se trata de renunciar ao próprio ser, mas ao ego, essa falsa ideia de que somos alguém, alguém especial. Tão logo sufocamos a ideia do ego, as portas se abrem - para o vento, a chuva, o sol - e a presença do mestre começa a nos invadir, criando uma nova dança em nossa vida, fornecendo-nos um novo sentido de poesia, mistério e música.

Sincronicidade: o mestre dança num certo ritmo e num determinado plano. Se você estiver pronto, também começará a dançar como ele - no princípio só um pouco, mas esse pouco já é o bastante. No princípio gotas; logo depois, o oceano.

Quando houver saboreado a alegria de abrir-se, você não conseguirá mais fechar-se. Primeiro, abrirá apenas uma janela ou uma porta; em seguida, todas as janelas e todas as portas. Chega um momento na vida do discípulo, em que não só as portas e janelas se abrem, como as próprias paredes desaparecem. O discípulo está então totalmente aberto, multidimensionalmente disponível, Esse é o signficado da palavra Upanishad.

Os Upanishads foram escritos em Sânscrito, a língua mais antiga da Terra. A palavra Sânscrito quer dizer, transformado. A própria língua se transformou porque como muitos que a usavam atingiram o absoluto, parte de sua alegria e parte da sua poesia penetraram nas células nas fibras dessa língua. Ela se modificou, se iluminou. Foi inevitável. (...) A iluminação deles penetrou no Sânscrito com sua música, sua poesia, sua celebração. O Sânscrito se iluminou. É o idioma mais poético e musical que jamais existiu.

Uma língua poética é o oposto de uma língua científica. Numa língua científica, cada palavra precisa ter um significado exato, ou seja, um único significado. Numa língua poética, a palavra precisa ser líquida, fluída, dinâmica ( nunca estática ); precisa apresentar vários significados, várias possibilidades. (...) Dá-se ao Sânscrito o nome de devavani, "a língua divina". E com razão, pois, de todos, é o idioma mais poético e mais musical. Cada palavra soa como música, cada palavra tem seu perfume.

Por que isso aconteceu? Porque muitos dos seus falantes estavam repletos de harmonia interior. Como esses falantes eram iluminados, as palavras que empregavam se tornaram luminosas. Parte de sua luz se transferiu para os vocábulos, aderiu a eles; parte de seu silêncio se entranhou na própria gramática, na própria estrutura da língua que usavam. (...)Cada palavra foi usada por pessoas que conheceram Deus ou o divino.

Eis um fundamento que nunca deve ser esquecido. Os Upanishads dizem que o mundo é a forma manifesta de Deus e que Deus é a forma não manifesta do mundo; dizem também que cada fenômeno manifesto traz em si um fenômeno não manifesto.

Quando você vê uma flor, vê apenas a forma manifesta de algo que está dentro dela, sua essência invisível, sua alma seu ser verdadeiro dissecando a flor. Para consegui-lo, precisará recorrer a abordagem poética, não à abordagem científica. Esta analisa, aquela é uma perspectiva totalmente diversa. A ciência jamais encontrará beleza na flor porque a beleza pertence à forma não manifesta. A ciência dissecará a forma manifesta e encontrará todas as substâncias de que a flor é constituída, mas não encontrará sua alma.

Todas as coisas têm corpo e alma. O corpo é o mundo e a alma é Deus; o corpo, porém, não é inimigo da alma, assim como o mundo não é inimigo de Deus. O mundo manifesta Deus, exprime Deus. Deus é o silêncio e o mundo é a canção desse silêncio. O mesmo se aplica a você. Toda pessoa tem uma estrutura manifesta ( corpo-mente) e uma estrutura não manifesta ( consciência).

A religião busca descobrir o não manifesto no manifesto. Não é uma questão de fugir de tudo; é uma questão de explorar as profundezas. Explorar o centro silencioso, o olho do furacão. Ele está sempre presente e pode ser achado a qualquer momento. Não é algo que se vá encontrar em outra parte, no Himalaia ou num mosteiro. Está dentro de nós! Podemos encontrá-lo tanto no Himalaia quanto num mercado.

Os Upanishads ensinam que é errado escolher entre o absoluto e o relativo. Qualquer escolha nos divide, impedindo-nos de ser um todo. E sem totalidade não há bem-aventurança, não há santidade; sem ela nos tornaremos invariavelmente um pouco dispersos, insanos. Quando formamos um todo temos saúde porque não estamos fragmentados.

O relativo é o mundo mutável, fenomênico; o absoluto é o centro permanente de um mundo inconstante. Encontre o imutável no mutável. Ele está ao seu alcance, você só precisa conhecer a técnica de encontrá-lo. Essa técnica é a meditação.

Meditar significa simplesmente sintonizar-se com o não-manifesto. O corpo está aí, você pode vê-lo; a mente está aí, você pode vê-la também. Se fechar os olhos, conseguirá surpreendê-la em pleno funcionamento, em plena ação. Pensamentos irrompem, desejos brota, lembranças chegam à superfície - a atividade toda da mente está aí, você pode percebê-la.

Uma coisa é certa: o observador não é a mente. Aquele que acompanha as atividades da mente não faz parte da mente. O observador está separado, a testemunha está separada. Quando você toma consciência dessa testemunha, descobre o essencial, o central, o absoluto, o imutável.

O corpo muda: as pessoas são crianças, depois jovens, depois velhas...Estiveram no útero da mãe, nasceram e um belo dia morrerão, desaparecendo no ventre da existência. O corpo muda, muda sem parar.

A mente muda. De manhã você está alegre, de tarde irritado, de noite triste. Humores, emoções, sentimentos mudam; pensamentos mudam. A roda gira perpetuamente em torno de você como um ciclone. O mundo dos fenômenos é o ciclone, nunca o mesmo, sequer por dois momentos consecutivos.

Entretanto alguma coisa é sempre a mesma, inalterável: a testemunha. Descobri-la é descobrir o Divino. Por isso, os Upanishads não ensinam nenhum culto, ensinam a meditação. Esta pode ser praticada em qualquer lugar porque o objetivo é descobrir a testemunha. Num mosteiro, o mesmo método deverá ser aplicado; e numa montanha também. Você poderá estar em casa, com a família, ou no supermercado - método é um só.

No mundo, na verdade, é mais fácil perceber a mudança. No deserto é mais difícil, porque ali nada parece se alterar; as mudanças ocorrem de maneira tão sutil que é quase impossível notá-las. Mas no mercado ou na rua, podemos perceber a mudança a todo instante; o trânsito flui, jamais se detém. Viver num mosteiro é viver num mundo estático, num mundo sonolento. É viver como uma rã numa lagoa, num poço fechado. No oceano, percebe-se melhor as mudanças.

É bom estar no mundo; eis a mensagem dos Upanishads. Os videntes upanishádicos não eram ascetas. Sem dúvida renunciavam a muita coisas, mas essa renúncia não lhes custava nenhum esforço; provinha do conhecimento, da meditação. Eles renunciavam ao ego porque sabiam que o ego é um produto fabricado pela mente. Não possui realidade nem substância; não passa de sombras e perder tempo com ele é uma estupidez. Renunciar, aqui não é bem o termo; melhor diríamos que, dado o grau desses videntes, o ego definhava por si mesmo.

Eles se tornavam não possessivos. Isso não quer dizer que não possuíam coisas, e sim que não se apegavam a elas. Usavam-nas. Não eram mendigos. Viviam alegremente, gozando tudo o que lhes fosse acessível, mas não se agarravam a nada. Esta é a verdadeira renúncia: viver no mundo e ainda assim não ter apego algum. Amavam, mas não eram ciumentos. Amavam plenamente, mas sem egoísmo, sem querer dominar o outro.

É isso que estou tentando fazer aqui. (...) Nos Upanishads encontrarão seu próprio coração, eles rejubilarão nos Upanishads, por que os Upanishads ensinam a Totalidade." 

Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

SOBRE AS MENTIRAS - PREM BABA

 

SOBRE AS MENTIRAS - PREM BABA



"Uma das principais consequências da mentira é a doença física. Quanto mais tempo você permanece na mentira, mais doenças você começa a ter. Isso porque, em algum momento, você foi impedido de ser quem era e se desconectou da sua essência, passando a atuar através de uma máscara, de um fingir ser, para conseguir ser aceito e amado. Acontece que agindo a partir da máscara, muito do que você sente como espontaneidade ou liberdade é mentira – é tudo um teatro -, e os sintomas dessa atuação costumam se manifestar na forma de doenças como ansiedade, depressão, angústia, compulsões e vícios para esconder a dor de não se lembrar de quem é. Dessa forma, o corpo começa a adoecer e todo o metabolismo passa a se desequilibrar.

A mentira é uma prisão que esconde o medo: você tem medo de sentir algumas coisas e de falar a verdade e não dar conta das reações que isso provoca. Mas fazendo dessa forma, você está perdendo uma grande chance, que é a chance de evoluir nesta encarnação. Lembre-se que a vida neste planeta é como uma bolha de sabão e que quando menos se espera, o jogo termina. Por outro lado, eu sei que para poder lidar com o seu medo e as reações provocadas pela honestidade, se faz necessário ter uma estrutura, e até alcançá-la você seguirá acreditando que não dá conta da verdade, que não pode ser honesto consigo mesmo e consequentemente, com os outros. Mas será que isso é mesmo verdadeiro?

Quando falo de Verdade, falo de uma Verdade que sempre existiu. Ela está aqui agora e sempre existirá. Ela esteve presente no início, está presente neste instante e estará presente no fim, embora ela mesma não tenha começo e nem final. A Verdade simplesmente é, da mesma forma que o amor simplesmente é. Assim como você não pode aprender a amar – pode apenas remover o ódio para o amor se revelar – o mesmo se dá com relação à Verdade – o que você pode fazer é remover a mentira para Ela aparecer.

Certa vez Jesus disse: “A Verdade vos libertará”. Eu tenho constatado que liberta mesmo, tanto que tenho dito que o valor da honestidade é o mais urgente e necessário em nossa jornada evolutiva. A honestidade é uma forma do amor, é uma expressão do amor mais urgente neste momento. Considero que este valor seja a base, a fundação do templo da consciência. Por isso, se você não pode dar passagem para ele, seu processo evolutivo estará interrompido.

Se estiver atento, vai perceber que preso na mentira estará apenas andando em círculos, sem se desenvolver nem como pessoa e nem como consciência. Sem honestidade você só pode crescer (se é que se pode chamar de crescimento) no mundo material. Aliás, você poderá crescer até um determinado ponto e não mais do que isso. Alguns chegam a construir impérios com base na mentira, mas existe uma lei que determina que todas as construções que não têm lastros na Verdade precisarão cair, porque são como capas temporárias que em algum momento terão de ser rasgadas. Isso porque a Verdade é a Essência; é aquilo que podemos chamar também de Deus. Se a gente segue para uma visão onde tudo é Deus, vemos inclusive a mentira como Deus, mas esse já é um aspecto distorcido que vou deixar para comentar em um outro momento.

Tem pessoas que desenvolvem riqueza para fugir da pobreza, por exemplo. Essa é uma forma de mentira, já que no mais profundo essas pessoas ainda não podem encarar dentro delas a pobreza que lhes habita. Então, saem correndo atrás da riqueza e se não houver nenhuma crença que as impeçam de crescer nessa área, elas progridem. Mas em algum momento essa riqueza terá que cair para que possam encarar o medo que sentem da pobreza e poderem então, ser ricas de verdade, tendo em vista que a real riqueza nasce da plenitude e da verdade e não da máscara e da mentira.

Acontece que para encarar essa verdade é preciso ter disposição, o que significa abrir mão das mentiras e lidar com suas consequências. Um bom caminho é investigar o medo que você sente em dizer a verdade. Permita-se conhecer as histórias que esse medo te conta. As fantasias do que podem acontecer caso você resolva ser honesto. Talvez você passe alguns apuros mesmo, porque existem mentiras e mentiras e algumas são realmente, como se diz no Brasil, cabeludas.

Porém, se conseguir ser honesto a ponto de admitir suas mentiras para você mesmo, estará dando um passo em direção à transformação. Para isso, sugiro um exercício bem simples: faça um diário das suas mentiras. Toda noite, antes de dormir, descreva-as num caderno. É só você com você. Não precisa mostrar para ninguém, então pode ser bem sincero. Descreva todas as mentiras, desde as mentirinhas bobas, que você conta para poder tirar vantagem ou para ficar ‘bem na foto’, até aquelas mentiras que te levam a inventar mais mentiras para poder sustentá-las. Sempre releia as mentiras do dia anterior e veja se está havendo alguma mudança, algum progresso. Dessa forma, a cada dia você conseguirá caminhar, nem que seja um pouquinho, em direção à verdade.

Muitas vezes, você fica preso na mentira porque acredita na ilusão de que, dessa forma, estará protegido. Com base nessa mentira, você constrói uma zona de conforto e acredita estar livre de qualquer conflito. Mas, ao mesmo tempo em que existe um conforto, existe também um incômodo, e esse incômodo é quem vai, muitas vezes, prejudicar a sua saúde manifestando-se na forma de uma série de doenças como já mencionei anteriormente. Em outras palavras, para viver na mentira você abre mão de muitas coisas, entre elas a sua liberdade e integridade. Entenda que as mesmas paredes que te protegem são as paredes que te aprisionam, e esse é o preço que você paga por essa falsa segurança de ser quem não é.

Eu sinto que além de você e cada um de nós, o mundo está precisando do remédio da honestidade. 
O mundo está precisando de Deus. E Deus é Verdade, Deus é Amor. O mundo está precisando de Verdade e de Amor. 
Que possamos nos comprometer com o valor honestidade."
Sri Prem Baba em Satsang

KṢĀNTI - SWAMI DAYANANDA

 

KṢĀNTI - SWAMI DAYANANDA




"A palavra sânscrita kṣānti frequentemente é traduzida como "tolerância" ou "capacidade de suportar". Mas essas duas expressões portuguesas trazem um sabor negativo de "sofrimento resignado", quando, ao contrário, kṣānti é uma atitude positiva - não uma resignação dolorosa. Uma tradução melhor seria "acomodação". 

A atitude de kṣānti significa que eu, alegremente, calmamente, aceito aquele comportamento e aquelas situações que não posso mudar. Desisto da expectativa ou exigência pela mudança de outra pessoa ou situação, de forma a se moldar ao que penso ser agradável para mim. Eu me acomodo às situações e às outras pessoas alegremente.

Todos os relacionamentos requerem acomodação

Esse valor deve ser construído a partir da compreensão da natureza das pessoas e dos relacionamentos entre elas. Nunca encontrei numa pessoa todas as qualidades de que gosto ou todas de que não gosto. Qualquer pessoa será uma mistura de coisas que acho interessante e outras que considero desinteressantes. Similarmente, eu terei o mesmo impacto nos outros. Ninguém vai me achar totalmente agradável. Quando reconheço esses fatos, vejo que todos os relacionamentos requerem alguma acomodação da minha parte. Não estarei disposto, ou talvez não serei capaz de mudar ou satisfazer todas as expectativas que o outro tem de mim; tampouco os outros estarão dispostos ou serão capazes de mudar e satisfazer todos os meus critérios em relação a eles. Nunca encontrarei um relacionamento que não requeira acomodação.

Em especial, os relacionamentos que envolvem coisas que fortemente desgosto em alguém requerem acomodação da minha parte. Se eu for capaz de modificar a pessoa, ou se puder colocar uma distância entre mim e ela, sem faltar ao meu dever, tudo estará bem. Mas se não puder fazer isso, simplesmente devo me acomodar alegremente. Ou seja, devo tomar a pessoa como ela é. Não posso esperar que o mundo ou as pessoas mudem. Simplesmente não é possível compelir as pessoas a mudar para satisfazer minha expectativa de como elas deveriam ser. Algumas vezes alguém pode mudar um pouco por mim ou pode tentar mudar, mas não posso contar com isso. Geralmente, quando quero uma mudança nos outros, eles também desejam uma mudança em mim. Teremos, então, um impasse.

Para kṣānti, diminua as expectativas
Quando examinar meus processos mentais, provavelmente verificarei que, para minha surpresa, eu ofereço kshánti mais prontamente para um tolo insuportável do que para meu melhor amigo. Isso porque não espero algo sábio ou inteligente de um tolo; mas espero que meu amigo viva de acordo com certos padrões que considero adequados. Um tolo incorrigível não consegue me desapontar, mas outros, por uma razão ou outra, em algum momento, conseguem. Não deveria ser assim. Minhas expectativas deveriam colocar todos na mesma categoria do tolo incorrigível. Ninguém deveria ser capaz de me desapontar, mas somente capaz de me surpreender. E minha atitude deve ser a de estar preparado para acomodar todas as surpresas possíveis.

Devo acomodar as pessoas como acomodo objetos inertes, isto é, devo tomá-las como são. Eu não gosto de ser queimado pelo Sol, porém não peço ao Sol que pare de brilhar. Aprecio a benção mista de um Sol quente brilhando e entendo que, sendo uma benção mista ou não, não posso desligá-lo. Não peço às abelhas que não tenham ferrão, tampouco odeio as abelhas se, estando no caminho delas, recebo uma picada. Continuo apreciando a função da abelha e aproveito o mel.

Porém, considero ser muito mais difícil ter para com as pessoas a atitude que tenho com os insetos e objetos inertes. Posso me relacionar adequadamente com um objeto inerte ou uma criatura selvagem porque não espero qualquer mudança deles. Mas espero que as pessoas possam mudar para se tornarem mais agradáveis para mim. Mantenho minha mente agitada com exigências contínuas por mudanças de forma que os outros em minha vida sejam mais de acordo com as minhas preferências. De fato, nem os humanos podem ser capazes de mudança.

Freqüentemente não conseguem mudar ou por falta de força de vontade ou por falta de vontade. Quando alguém não consegue mudar ainda que deseje mudar é porque não possui força de vontade. Nada mais há a fazer, a não ser acomodar essa pessoa. Quando uma pessoa não muda porque não deseja tentar a mudança, podemos tentar convencê-la a ter a vontade de se beneficiar de uma mudança. Se não for possível convencê-la, então acomode-a. O que mais se pode fazer?! De qualquer maneira, o mundo é amplo. A variedade torna-o mais interessante. Há espaço suficiente para acomodar a todos.

Responda à pessoa, não à ação

Para descobrir dentro de mim um valor pela acomodação, eu deveria olhar para a pessoa por trás da ação. Geralmente, é quando estou respondendo ao comportamento da pessoa, à sua ação, que acho difícil ser acomodativo. Quando tento entender a causa por detrás da ação, me coloco numa posição de responder à pessoa e não à ação, e então minha resposta para essa pessoa pode ser uma resposta acomodativa. Tento ver o que existe por detrás do súbito ataque de raiva ou da explosão de ciúmes ou da conduta dominadora e respondo à pessoa, e não às ações.

Se não consigo ver o que há por detrás das ações, ainda assim, tenho em mente o fato de que muitas razões desconhecidas por mim armam o palco para qualquer ação por parte da outra pessoa. Com essa disposição de espírito achei natural ser acomodativo. Numa situação onde minha interação é para com a pessoa em vez de para com a conduta, conseguirei me manter calmo. De fato, a dissolução de qualquer discussão entre pessoas é quase sempre o resultado de uma apreciação mútua feita pelas pessoas em vez de uma nova atitude quanto à conduta irrefletida.

Reações mecânicas impedem a acomodação. Para ser livre ao interagir com uma pessoa, devo ser livre de reações mecânicas. Tenho que escolher minhas atitudes e fazer as ações deliberadamente. Uma reação é um tipo de conduta mecânica e não-deliberada. É uma resposta condicionada extraída de experiências anteriores, sem autorização prévia da minha vontade. Na verdade, é uma resposta que não foi avaliada conforme a estrutura de valores que estou tentando assimilar, mas que somente ocorreu. Algumas vezes a minha reação pode ser uma ação ou atitude que, mais tarde, após reflexão, eu aprovaria.

Outras vezes minhas reações podem ser completamente contrárias às atitudes e ações que eu gostaria de manter ou fazer. Reações podem ir contra toda a minha sabedoria, estudo e experiência anterior. Esses fatores são relegados e a reação ocorre. O que aprendi anteriormente torna-se sem valor para mim. Posso ter lido todas as escrituras do mundo, posso ser um ótimo estudante de sistemas éticos, posso ser um profissional diplomado em dar conselhos aos outros, mas quando acontece a reação, essa será exatamente tão mecânica como a de qualquer outro.

Sabedoria, aprendizado e experiência não me servirão de nada. Portanto, até que meus valores éticos se tornem completamente assimilados, estabelecendo uma base a partir da qual atitudes e ações corretas surjam espontaneamente, devo, através da atenção, evitar reações e, ao invés disso, deliberadamente e refletidamente escolher minhas ações e atitudes. Quando evito reações, estou livre para escolher minhas ações e atitudes, posso ser acomodativo em meus pensamentos, palavras e ações.

Kṣānti e ahimsā: qualidades de um santo

Acomodação é uma qualidade bela e santificada. Dentre todas as qualidades, ahimsā e kṣānti constituem as qualidades de um santo. As qualificações mínimas para um santo são essas duas qualidades. Não é preciso ter sabedoria nem é necessário o aprendizado das escrituras para ser um santo, mas a pessoa deve ter esses dois valores. Um santo é uma pessoa que nunca fere conscientemente outra pessoa pela palavra, ação ou pensamento, e que aceita as pessoas - boas ou ruins - exatamente como elas são; que tem uma infinita capacidade de acomodar, perdoar e ser compassivo.

Essas qualidades (acomodação, perdão, compaixão...) estão incluídas na qualidade chamada kṣānti. Um santo sempre é dotado de kshánti - uma capacidade infinita para a compaixão. Ele responde à pessoa, não à ação. Ele vê a ação errada como um erro originário de um conflito interno e é compassivo para com a pessoa que o comete. Uma atitude de kṣānti, acomodação, expande o coração. Esse se torna tão amplo que aceita todas as pessoas e circunstâncias exatamente como elas são, sem desejos ou cobranças de que sejam diferentes. Isso é kṣānti."

Por Swami Dayananda Sarawasti  [fonte aqui]