domingo, 10 de novembro de 2013
De Olhos Fechados
Sentado ali em frente de seu congá o velho pai de santo relembra com surpreendente nitidez sua infância e seu primeiro contato com espiritualidade.
Faz Caridade Fio!
Negro Ambrósio em 18/09/2007
por Mãe Luzia Nascimento
Dirigente do Centro Espiritualista Luz de Aruanda
Faz caridade fio, faz caridade fio!
Assim era as fala do negro Ambrósio através do aparelho mediúnico que lhe servia de canal para fazer proseador.
Não era a primeira que aquele consulente ouvia esse conselho do Pai Velho, já havia se passados oito meses desde o primeiro dia que aquele senhor tinha adentrado ao terreiro, passando a fazer parte da assistência, sempre voltando ao negro Ambrósio para tirar suas duvidas.
Naquele dia ele estava decidido. Iria perguntar ao Velho porque toda vez que falava com ele escutava o mesmo conselho? Será que como espírito não estava vendo que ele já estava fazendo sua parte?
Esperou ansioso a sua vez. Aquela noite seria especial, seria diferente das outras, aquele encontro marcaria uma nova etapa no caminhar daquele senhor.
Como sempre fazia, mais por repetição do que mesmo por convicção, se ajoelhou diante do negro Ambrósio e foi dizendo:
- Benção vô Ambrósio, hoje venho lhe pedir uma explicação para melhor entender o que o senhor me diz.
- Oxalá te abençoe meu fio! Negro Ambrósio fica feliz com sua presença e gosta de fazer proseador com todos os fios que aqui vem.
- Meu vô, como o senhor mesmo sabe já faz algum tempo que venho a essa casa e falo com o senhor. Como já lhe disse não tenho uma situação financeira ruim, ao contrário, nunca tive problemas dessa ordem o que sempre me facilitou uma vida com fartura e bem-estar desde a infância.
- Certo meu fio, negro Ambrósio já tem cunhecimento de tudo isso que suncê falou.
- É meu vô, por essa razão gostaria de lhe perguntar porque o senhor toda vez que fala comigo me aconselha a fazer a caridade? O senhor não já sabe que faço isso todo mês entregando gêneros alimentícios aos que estão carentes? Além do que, na minha empresa mantenho uma creche para os filhos dos meus empregados para que assim possam trabalhar com mais tranqüilidade. Por isso gostaria que me explicasse o porquê desse conselho, dentro da minha consciência cumpro com meu compromisso.
- É verdade meu fio, tudo isso que suncê falou pra negro veio, faz parte de seu compromisso e fio cumpre direitinho sua parte. Porém fio esse compromisso faz parte de seu social. Suncê alimenta o corpo material que precisa de sustentação pra ficar de pé, pois se não for assim fio tem prejuízo, só que o fio também precisa distribuir o pão espiritual e assim fazer a caridade.
- Não entendi meu vô seja mais claro? Que caridade espiritual é essa?
- É a mesma que esse meu aparelhinho faz aqui no terreiro. Suncê precisa assumir sua condição de médium.
Espantado, disse o senhor: como é que é vô Ambrósio o senhor está me dizendo que tenho compromisso com a mediunidade na Umbanda é isso?
- É isso sim, meu fio. Suncê tem compromisso com essa banda.
Ante as muitas verdades que ele já tinha ouvido, nunca uma afirmação estava tanto a lhe remoer a alma. Como seria possível? Achava bonito a Umbanda, gostava do cheiro das ervas e do cachimbo dos vôs, mais daí então a ser médium era demais para ele.
Mesmo de forma acanhada buscando aparentar tranqüilidade aquele senhor disse ao vô:
- Meu vô acho que há um equívoco, pois nunca senti nada a respeito da mediunidade.
- Num sentiu porque se prende e que não quer dizer ou suncê acha que nego veio não vê o companheiro de Aruanda que lhe acompanha e que hoje está dando autorização pra fazer esse conversado? Meu fio diz que gosta do cheiro das ervas e desse terreiro – o que é uma verdade – mas o que fio não se vê é dobrando o corpo para prestar a caridade, deixando assim que seu Pai Preto também lhe traga lições para seu caminhar. Então meu fio, enquanto suncê não entender, nego veio vai continuar repetindo o conselho: faz caridade fio, faz caridade fio! Mesmo que tenha que arrepetir isso por muitas veis, pois água mole em pedra dura fio, tanto bate inté que fura. Olha fio! Eu tenho um compromisso moral com esse companheiro de Aruanda que te acompanha e te agaranto que não será de minha parte que não será cumprido. Pensa no que esse veio te falou e dispôs vem prosear novamente, pois o passo de veio é miudinho e devagarzinho, só tem uma coisa fio: o tempo corre e espero que suncê queira aproveitar enquanto tá desse lado de cá!
Aquele senhor se levantou da frente de negro Ambrósio sem dizer mais nenhuma palavra, seria preciso tempo para digerir tudo que ele tinha ouvido.
Oito meses se passaram depois daquela prosa, ninguém no terreiro tinha visto novamente aquele senhor na assistência.
Era 13 de maio, gira festiva de preto velho, os trabalhos tinham se iniciado. Negro Ambrósio olhava para a porteira do terreiro como se estivesse a esperar por alguém e assim cantarolava “acorda cedo meu fio, se com velho quer caminhar, olha que a estrada é longa e velho caminha devagar, é devagar, é devagarinho quem anda com preto velho nunca ficou no caminho”. Acostumados com a curimba os filhos da corrente repetiam os versos sem perceber que naquele dia a entonação estava mais dolente. Mais um filho de Zambi venceria uma etapa, mais um seria libertado.
E foi olhando para a porteira que negro Ambrósio viu aquele senhor adentrar no terreiro, com os olhos rasos d’água e de joelhos se postar assim dizendo: Vô Ambrósio se é verdade que tenho essa tal mediunidade aqui estou para aprender a fazer caridade, nesses 8 meses minha vida perdeu a alegria, relutei muito para chegar aqui novamente e não nego que fugi por vergonha se ainda houver tempo…
Aquele senhor nem chegou a ouvir a resposta do negro Ambrósio. Do seu lado já se encontrava um negro que de forma doce e amorosa assim falou: Meu fio a quanto tempo espero por esse momento, por esse reencontro. Vamos trabaiá meu fio nas bênçãos de Zambi e na fé de Oxalá!
Diante dos filhos daquela corrente, aquele homem branco, de olhos claros, quase translúcidos, alto, dava passagem nesse momento a mais um preto velho e foi curvando aquele corpo que se ouviu a voz da entidade assim dizer: Bendito e louvado sejam o nome de nosso Pai Oxalá! Saravá negro Ambrósio! Pai Joaquim das Almas se faz presente nesse Gongá!
- Saravá Pai Joaquim!
E daquele dia em diante mais um filho começava a sua caminhada. Mais um chegava a corrente da casa. Mais uma estrela passou a brilhar nos céus de Aruanda!
Saravá Preto!!!
Centro Espiritualista Caboclo Pery
por Mãe Luzia Nascimento
Dirigente do Centro Espiritualista Luz de Aruanda
Faz caridade fio, faz caridade fio!
Assim era as fala do negro Ambrósio através do aparelho mediúnico que lhe servia de canal para fazer proseador.
Não era a primeira que aquele consulente ouvia esse conselho do Pai Velho, já havia se passados oito meses desde o primeiro dia que aquele senhor tinha adentrado ao terreiro, passando a fazer parte da assistência, sempre voltando ao negro Ambrósio para tirar suas duvidas.
Naquele dia ele estava decidido. Iria perguntar ao Velho porque toda vez que falava com ele escutava o mesmo conselho? Será que como espírito não estava vendo que ele já estava fazendo sua parte?
Esperou ansioso a sua vez. Aquela noite seria especial, seria diferente das outras, aquele encontro marcaria uma nova etapa no caminhar daquele senhor.
Como sempre fazia, mais por repetição do que mesmo por convicção, se ajoelhou diante do negro Ambrósio e foi dizendo:
- Benção vô Ambrósio, hoje venho lhe pedir uma explicação para melhor entender o que o senhor me diz.
- Oxalá te abençoe meu fio! Negro Ambrósio fica feliz com sua presença e gosta de fazer proseador com todos os fios que aqui vem.
- Meu vô, como o senhor mesmo sabe já faz algum tempo que venho a essa casa e falo com o senhor. Como já lhe disse não tenho uma situação financeira ruim, ao contrário, nunca tive problemas dessa ordem o que sempre me facilitou uma vida com fartura e bem-estar desde a infância.
- Certo meu fio, negro Ambrósio já tem cunhecimento de tudo isso que suncê falou.
- É meu vô, por essa razão gostaria de lhe perguntar porque o senhor toda vez que fala comigo me aconselha a fazer a caridade? O senhor não já sabe que faço isso todo mês entregando gêneros alimentícios aos que estão carentes? Além do que, na minha empresa mantenho uma creche para os filhos dos meus empregados para que assim possam trabalhar com mais tranqüilidade. Por isso gostaria que me explicasse o porquê desse conselho, dentro da minha consciência cumpro com meu compromisso.
- É verdade meu fio, tudo isso que suncê falou pra negro veio, faz parte de seu compromisso e fio cumpre direitinho sua parte. Porém fio esse compromisso faz parte de seu social. Suncê alimenta o corpo material que precisa de sustentação pra ficar de pé, pois se não for assim fio tem prejuízo, só que o fio também precisa distribuir o pão espiritual e assim fazer a caridade.
- Não entendi meu vô seja mais claro? Que caridade espiritual é essa?
- É a mesma que esse meu aparelhinho faz aqui no terreiro. Suncê precisa assumir sua condição de médium.
Espantado, disse o senhor: como é que é vô Ambrósio o senhor está me dizendo que tenho compromisso com a mediunidade na Umbanda é isso?
- É isso sim, meu fio. Suncê tem compromisso com essa banda.
Ante as muitas verdades que ele já tinha ouvido, nunca uma afirmação estava tanto a lhe remoer a alma. Como seria possível? Achava bonito a Umbanda, gostava do cheiro das ervas e do cachimbo dos vôs, mais daí então a ser médium era demais para ele.
Mesmo de forma acanhada buscando aparentar tranqüilidade aquele senhor disse ao vô:
- Meu vô acho que há um equívoco, pois nunca senti nada a respeito da mediunidade.
- Num sentiu porque se prende e que não quer dizer ou suncê acha que nego veio não vê o companheiro de Aruanda que lhe acompanha e que hoje está dando autorização pra fazer esse conversado? Meu fio diz que gosta do cheiro das ervas e desse terreiro – o que é uma verdade – mas o que fio não se vê é dobrando o corpo para prestar a caridade, deixando assim que seu Pai Preto também lhe traga lições para seu caminhar. Então meu fio, enquanto suncê não entender, nego veio vai continuar repetindo o conselho: faz caridade fio, faz caridade fio! Mesmo que tenha que arrepetir isso por muitas veis, pois água mole em pedra dura fio, tanto bate inté que fura. Olha fio! Eu tenho um compromisso moral com esse companheiro de Aruanda que te acompanha e te agaranto que não será de minha parte que não será cumprido. Pensa no que esse veio te falou e dispôs vem prosear novamente, pois o passo de veio é miudinho e devagarzinho, só tem uma coisa fio: o tempo corre e espero que suncê queira aproveitar enquanto tá desse lado de cá!
Aquele senhor se levantou da frente de negro Ambrósio sem dizer mais nenhuma palavra, seria preciso tempo para digerir tudo que ele tinha ouvido.
Oito meses se passaram depois daquela prosa, ninguém no terreiro tinha visto novamente aquele senhor na assistência.
Era 13 de maio, gira festiva de preto velho, os trabalhos tinham se iniciado. Negro Ambrósio olhava para a porteira do terreiro como se estivesse a esperar por alguém e assim cantarolava “acorda cedo meu fio, se com velho quer caminhar, olha que a estrada é longa e velho caminha devagar, é devagar, é devagarinho quem anda com preto velho nunca ficou no caminho”. Acostumados com a curimba os filhos da corrente repetiam os versos sem perceber que naquele dia a entonação estava mais dolente. Mais um filho de Zambi venceria uma etapa, mais um seria libertado.
E foi olhando para a porteira que negro Ambrósio viu aquele senhor adentrar no terreiro, com os olhos rasos d’água e de joelhos se postar assim dizendo: Vô Ambrósio se é verdade que tenho essa tal mediunidade aqui estou para aprender a fazer caridade, nesses 8 meses minha vida perdeu a alegria, relutei muito para chegar aqui novamente e não nego que fugi por vergonha se ainda houver tempo…
Aquele senhor nem chegou a ouvir a resposta do negro Ambrósio. Do seu lado já se encontrava um negro que de forma doce e amorosa assim falou: Meu fio a quanto tempo espero por esse momento, por esse reencontro. Vamos trabaiá meu fio nas bênçãos de Zambi e na fé de Oxalá!
Diante dos filhos daquela corrente, aquele homem branco, de olhos claros, quase translúcidos, alto, dava passagem nesse momento a mais um preto velho e foi curvando aquele corpo que se ouviu a voz da entidade assim dizer: Bendito e louvado sejam o nome de nosso Pai Oxalá! Saravá negro Ambrósio! Pai Joaquim das Almas se faz presente nesse Gongá!
- Saravá Pai Joaquim!
E daquele dia em diante mais um filho começava a sua caminhada. Mais um chegava a corrente da casa. Mais uma estrela passou a brilhar nos céus de Aruanda!
Saravá Preto!!!
Centro Espiritualista Caboclo Pery
sábado, 9 de novembro de 2013
História de Preto Velho

Pai Joaquim da Angola sempre ama ir a beira das cachoeiras pedir mais amor a humanidade e num belo dia viu algo que o deixou espantado e logo começou a chorar.
Ele chorando viu muita sujeira como restos de lixo que o povo do Axé jogou ao oferendar a mãe Oxum na Cachoeira.
Ele então reza:
- Ora iê iê omi Oxum. Mãe perdoa fios que fizeram isso no teu aconchego.
Então aparece ao Preto Velho a bela Mãe Oxum radiante de ouro e pedras preciosas.
Pai Joaquim deita e saúda mãe Oxum na beira da cachoeira.
Ela então diz ao Preto Velho:
- Amado, peça aos filhos desse Axé no Terreiro que venham e recolham essa sujeira do meu local sagrado. Mas diga que eu recebi deles os seus pedidos e dei meu Axé a todos.
O Preto Velho beija a mão de Oxum e diz:
- Sim, mãe amada vou inté o ilê e falarei com os fios.
Oxum se despede com um beijo no Preto Velho e entra no Rio.
Na Gira de toda Semana o Pai de Santo abre a Gira e então chama os Pretos Velhos para trabalhar.
Pai Joaquim então chega e pede para todos ficarem em silêncio que ele tinha que falar algo.
O Pai de Santo então diz:
- Meus filhos vamos deixar Pai Joaquim falar o que ele quer pois ele tem um recado dos Orixás.
O Preto Velho diz:
- Mim fios quando forem oferendar num façam sujeira na beira das cachoeiras como ocêis fizeram na que eu fui hoje e mãe Oxum pediu pra eu vir e pedir ocêis pra ir tirar a sujeira da beira da água sagrada. Mais deu a ocêis muito axé.
O Pai de Santo então se prostra diante do Preto Velho e diz:
- O que seriam de nós sem os amados Servos dos Orixás nossos Pretos Velhos em todo lugar?
O Preto Velho responde:
- O que seria né mim fio, do povo carecer de ter mais zelo pelos rios sagrados dos Orixás? Pois são fios da Natureza e fruto dela. Quer oferendar oferenda mas num façam sujeira.
"Se todos fizerem assim,a nossa história será outra".
OBS: Essa história foi contada pela Pomba Gira Maria Padilha da 7 Encruzilhadas que trabalha na Egrégora do CECP, visando explicar algumas dinâmicas de trabalho. Os personagens dessa história receberam nomes fictícios.
Carlos se dirige a um Centro de Umbanda aconselhado por um amigo, pois a sua vida está bastante complicada. Sua mãe vive doente, já tendo ido a diversos médicos sem sucesso na cura. O seu pai foi demitido da empresa que trabalhava há mais de 25 anos e vive deprimido e chorando pelos cantos. Ele mesmo desempregado há três anos, vê o seu filho adoecer sem condições de comprar o medicamento. A sua esposa, única ainda empregada, apresenta sérios indícios de fadiga mental e física.
Ao chegar no centro descobre que é dia de consulta com Preto Velho. O seu amigo Cláudio, vai explicando a rotina da casa e como ele deve agir e pedir na hora da consulta.
Chega finalmente a sua vez de se consultar, o seu pensamento está coberto de dúvidas, achando que estava chegando ao fundo do poço ao se dirigir a um terreiro de macumba, falar com uma pessoa que nunca viu antes na vida e abrir o seu coração, suas dúvidas e temores. Num primeiro momento acha graça da posição do médium todo curvado e do jeito de falar, não consegue se aquietar, mas o Preto Velho vai aos pouquinhos ministrando alguns passes e por fim Carlos começa a se abrir.
O Preto Velho a tudo ouve, manifestando de tempos em tempos palavras encorajadoras para o aflito Carlos.
Carlos não entende o por que, mas enquanto ele fala, o Preto Velho vai estalando os dedos em volta dele, olha discretamente para o copo d’água ao lado da vela, joga para cima a fumaça de seu cachimbo, e assim vai firmando e passando as informações para os guardiões que pertencem a egrégora da Casa, que através dos Exus de trabalho partem com a velocidade do pensamento para a casa de Carlos.
Em dado momento, o Preto Velho que está “preso” ao corpo carnal do médium e conseqüentemente com sua visão limitada, utiliza alguns elementos magísticos e ritualísticos para proporcionar alívio ao Carlos.
Diz no final da consulta que irá trabalhar para ele e toda a sua família, dá algumas recomendações sobre como rezar e elevar o pensamento a Deus e se despedem.
Carlos tem alguma sensação de alívio, sente-se mais leve e confiante, mas ao mesmo tempo não acredita que meia dúzia de estalar de dedos vão “resolver” o seu problema… Incrédulo, mas não tão fraco retorna a sua casa sem nem imaginar que a batalha está apenas começando.
O Preto Velho ao ver Carlos se levantar e ir embora sabe que a essa altura toda a egrégora da Casa já está se preparando para a batalha, e, apesar de ainda estar preso ao corpo do médium pelo processo de incorporação, pôde perceber que será grande.
Mas ainda há o que ser feito em terra… Precisa descarregar o seu aparelho e o terreiro. Terminado o saravá ele parte indo se unir com os outros membros da egrégora.
Com o término dos trabalhos, os médiuns começam a ir embora e no Terreiro de Umbanda se faz silêncio. Mas um silêncio apenas aos ouvidos humanos, pois os sons ali emitidos estão numa freqüência diferente dos sons conhecidos nessa Terra.
E os médiuns pensam: “A gira terminou.”
Não meus caros, a “gira” está apenas começando.
A egrégora da Casa está reunida dentro do terreiro aguardando o retorno dos Exus de Trabalhos com as informações reais de cada consulta que foi realizada.
Os Exus vão retornando, um a um.
O Mentor da Casa assiste e faz intervenções quanto às deliberações do Alto, e os Chefes de Linha estabelecem o famoso “quem vai fazer o que”. Tudo isso ocorre em ambiente absolutamente harmônico e organizado.
Exus, Caboclos e Pretos Velhos trocam impressões a respeito dos problemas apresentados e deliberam.
Mas, voltando ao nosso amigo Carlos. (Nesse momento vou dar nomes fictícios também as entidades envolvidas nesse trabalho. Digamos que o Preto Velho que atendeu Carlos chama-se Pai Benedito e o Exu de Trabalho chamado por ele foi Exu Marabô).
Quando Exu Marabô retorna com as informações a respeito do que encontrou na casa de Carlos, o diálogo que se dá é o seguinte:
Marabô: É, Pai Benedito, a situação lá está bem complicada.
Pai Benedito: Eu já suspeitava. O que você viu?
Marabô: A casa do moço Carlos foi totalmente absorvida por uma rede de energia que tem seres bem grotescos mantendo-a firme. Segui buscando a origem dessa rede e me deparei com uma construção logo acima da casa.
Adentrando ao recinto vi uma inteligência poderosa por trás disso, mas sem nenhuma relação direta com nenhum dos envolvidos. Buscando entender a “trama” continuei procurando o porque daquilo e encontrei uma mulher bastante dementada, com um aparelho acoplado em sua nuca e pude “ler” seus pensamentos e “sentir” seus desejos que eram de vingança para com o pai carnal do moço Carlos. Vi também que eles ainda não sabem que o moço Carlos veio aqui no terreiro.
Bem, em resumo: A inteligência envolveu essa pobre infeliz e prometendo-lhe “devolver” o pai do moço Carlos pra ela e suga suas energias que é retro-alimentada pelo sentimento de culpa que o pai do moço Carlos tem. Parece que foi uma aventura dele na juventude, só não me preocupei em saber se desta ou de outra vida, pois achei que os dados que tinha já eram suficientes para podermos trabalhar.
Pai Benedito: Sim, sim… Mais do que suficientes! Não estamos aqui para julgar ninguém. Isso cabe ao Pai.
Bem, nesse caso teremos que destruir essa construção, mas precisamos primeiro recuperar a moça, e já que o pai de Carlos está involuntariamente retro-alimentando a construção, precisaremos de recursos para auxiliar os familiares também.
Assim, Pai Benedito se dirige ao Caboclo Flecha Dourada, responsável pela corrente de desobsessão daquele terreiro e expõe a situação.
Imediatamente o Caboclo determina que a Pomba Gira Figueira irá utilizar os seus elementos magísticos para que a equipe de resgate da Casa recupere a moça e quem mais tenha condições de tratamento e a “equipe de força” destrua a construção e todos os equipamentos dentro dela.
Tarefas distribuídas, eles partem para a construção.
Caboclos, Pretos Velhos e Exus guardam uma certa distância da construção e observam a Pomba Gira Figueira assumir uma configuração praticamente transparente.
Ao chegar perto da construção percebe-se sair de sua boca uma espécie de fumaça enegrecida que começa a tomar conta do ambiente. Logo atrás dela, homens empurram uma espécie de carrinho, que lembram os carrinhos usados em minas de escavação de carvão.
Conforme a Sra. Figueira vai entrando no ambiente tomado por essa fumaça negra, os seres que lá estão caem em profundo sono, sendo resgatados pelos homens e colocados dentro dos carrinhos. A ação dela é rápida. Ninguém percebe a sua presença.
Quando todos são resgatados, a Sra. Figueira começa a manipular a energia dos instrumentos dentro da construção mudando sua forma, plasmando outras energias e transformando os instrumentos em bombas auto-destrutivas.
Finalmente sai da construção e os Exus que compõe a “tropa de choque” ou “equipe de força” passam a detonar a bomba e a destruir a construção e a malha que envolve a construção material na Terra e a prender os seres grotescos que dão sustentação a malha no ponto da construção material.
Caboclos e Pretos Velhos começam a tratar ali mesmo as inteligências retiradas da construção, colocando-os em macas e direcionando aos locais adequados aos tratamentos que irão receber, sob os olhos atentos dos Exus Guardiões, Amparadores e de Trabalho.
Outros partem para a construção material e começam o trabalho individualizado entre os membros da família. Exus fazem o trabalho de limpeza e descarga, resgatando os “perdidos”, para serem encaminhados para os trabalhos de desobsessão da Casa de Umbanda, abrindo espaço e dando condições vibratórias para o trabalho dos Caboclos e Pretos Velhos que é o de inspirar pensamentos de perdão ao pai de Carlos, de esperança no próprio Carlos, saúde e bons eflúvios na esposa e mãe de Carlos. Através de passes magnéticos Caboclos e Pretos Velhos transformam o campo vibratório da casa e cuidam de seus moradores.
Enquanto tudo isso ocorre a casa dorme, e todos são tratados em espírito.
Enquanto isso os médiuns daquele terreiro também dormem em suas casas, mas alguns estão doando ectoplasma, auxiliando nos trabalhos de transmutação energética. Uns participando ativamente e outros observando e aprendendo, através do processo de desdobramento, assistem a boa parte dos trabalhos.
Após o trabalho realizado o Mentor da Casa sorri.
*******
É claro que todos sabem que de agora em diante é de acordo com o merecimento de cada um, de cada membro dessa família, tudo dependerá do quanto cada um irá lutar para melhorar, mas agora sem as “amarras” ou interferência do Astral Inferior.
A Umbanda através de uma ação conjunta dos componentes da egrégora de uma Casa de Umbanda pôde proporcionar alívio, conforto e libertação aos membros da família e auxílio aos irmãos perdidos nas trevas da ignorância, do ódio, do rancor, do remorso e da culpa.
Mesmo que Carlos nunca mais volte ao terreiro para agradecer a melhora, ou que nunca desperte para a ajuda que recebeu,mesmo que o pai de Carlos nunca se perdoe, a Umbanda se fez presente em Caridade e Amor!
Agora diga com sinceridade, após ler tudo isso você ainda acha que Exu é o Diabo?
Você acha que importa ficarmos discutindo se Exu, a Umbanda e seus Orixás vieram da Atlântida, da África ou do quintal da sua casa?
Se ainda lhe resta alguma dúvida eu afirmo a minha certeza: a Umbanda nasceu do Coração de Zambi em Sua Infinita Misericórdia por nós! Porque só a Umbanda tem quem nos defenda e proteja independentemente da nossa ignorância nos impedir de reconhecê-los como bons e amigos!
Obrigada Exu pela proteção, defesa e principalmente por ter tanta paciência com a nossa ignorância!
Salve os nossos amigos, defensores e compadres! Saravá Exu e Pomba Gira!
Laroyê Exu!!!
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Relato de um atendimento com apometria
Consulente: DMS, 50 anos, mulher, viúva, espírita.
Sintomas: Faz 10 anos que a consulente tem aumento súbito do batimento cardíaco, acompanhado de dor no peito e sensação de fraqueza. Estes sintomas eram esporádicos até então. Assim como apareciam sumiam, de uma hora para outra. Ocorre que de um mês para cá se intensificaram, aumentando a freqüência do mal estar súbito. Quando chegou para o atendimento na Choupana, em dia de sessão de preto velho, tal mal estar havia se tornado diário, sempre de noite: disparo do batimento cardíaco, entorpecimento do lado esquerdo do corpo, dor no peito do lado do coração, sensação de peso e falta de ar. DMS se apresenta fraca, com olheiras, mas ainda consegue trabalhar. É assistente administrativa de um grande hospital público de Porto Alegre e fez todos os exames possíveis que a tecnologia moderna permite para auxiliar a medicina e nada de anormal foi diagnosticado. Os médicos não sabem o que fazer e a paciente se apresenta desanimada e fraca. Foi marcado atendimento com apometria em dia específico para este fim.
A Dinâmica do Atendimento: os atendimentos se dão na frente do congá, com os médiuns sentados em círculo. O consulente fica sentado no meio. São permitidas manifestações simultâneas e todas as formas espirituais são bem vindas. Regularmente utilizamos pontos cantados e todos os elementos peculiares à magia na umbanda. Encaminhamos espíritos doentes ao plano espiritual através de um breve diálogo fraterno. Nem todas as manifestações são mediúnicas e o animismo perde o estigma de mistificação, sendo comum as catarses referentes à traumas da vida passada do consulente.
Atendimento: durante a anamnese – entrevista com o consulente – verificou-se que a mesma tem um filho esquizofrênico de 30 anos, dependente dela e que reside junto. Aberta a freqüência da consulente e do seu filho doente, dado que ele não tem discernimento para entender a situação, pela aplicação de pausada contagem, estalar de dedos induzindo o desdobramento de ambos, se constatou vários espíritos sofredores no campo energético do filho. Todos foram tratados e encaminhados com a vibração dos exus e de Oxossi.
Após este socorro, descobrimos um espírito de mulher “grudado” no filho, sendo que sempre que ele dorme, de noite, se desloca violentamente para atacar a mãe, ao qual nutre ódio mortal. Esta entidade está desgrenhada, com sérias deformações em seu corpo astral.
Ataca DMS com uma tesoura na mão e tentar arrancar-lhe o coração, pois em sua perturbação se enxerga em situação de outra encarnação em que foi amante do filho e a atual mãe era a esposa. Tendo ficado grávida e sendo descoberta pela esposa de outrora, hoje a mãe atacada, que mandou capturarem-na e deixou-a morrer a míngua de fome e sede num calabouço, isto grávida avançada, com quase 9 meses. Com os pontos cantados de pomba gira das rosas, este espírito foi socorrido e se re-encontrou no astral com seu antigo filho – o bebê que ela perdeu nas entranhas – que veio socorrê-la. Ato contínuo, “refizemos” os chacras “danificados” da consulente com a vibração do oriente, oxum e Yemanjá.
Conclusão: não temos o direito de julgar ninguém. Mediunidade e apometria são ferramentas de auxílio incondicional ao próximo. Ao depararmo-nos com o presente quadro familiar, certamente uma encarnação de resgate por débitos do passado, nos defrontamos com um filho esquizofrênico, que vive mais o plano astral na mão dos inimigos desencarnados do que a vida da presente encarnação. Com o socorro feito, houve o alívio, se não duradouro ao menos temporário, dando um alento a todos os envolvidos: a atual mãe atacada diariamente, a mãe e amante do passado que se encontra novamente com seu filhinho, e o filho doente de agora – esquizofrênico –Ex marido traidor, que tem um alívio na repercussão vibratória enfermiça da entidade doente que estava fixa em seu campo vibratório, utilizando-se de sua mediunidade descontrolada para usá-lo como trampolim de sua vingança contra a atual mãe e antiga desafeta. O tempo – e xangô – regem os caminhos ascensionais de todos nós e sabem o que é de cada um para aprendizado e evolução. Não nos foi dado saber a anterioridade do enredo entre estes três espíritos. Com certeza são consciências muito ligadas em obsessão recíproca. A cada um segundo suas obras diante das soberanas leis cósmicas que imputam a reencarnação a todos nós.
Relato de incorporação em desdobramento astral
A sessão de caridade foi muito procurada naquela noite no terreiro. Vários consulentes com desequilíbrios sexuais, seja excesso ou ausência de intercurso com o sexo semelhante ou oposto, traições, trocas de parceiros. A maioria com vampirizações por espíritos densos no chacra básico.
Graças a Oxalá, sou médium consciente. Isto não quer dizer que terei lembrança de tudo que foi dito pela entidade quando me irradiava vibratoriamente. É me dado lembrar com mais vivacidade aspectos importante para o meu aprendizado ou para os trabalhos que continuarão ocorrendo à noite durante o sono físico.
Desdobramos parcialmente nosso corpo astral durante a sessão de caridade e completamente durante o sono físico, dependendo da especificidade do trabalho e da quantidade de fluído vital - axé – ectoplasma – que os guias necessitarão durante os trabalhos de caridade.
A noite, após a sessão, tive uma experiência gratificante...Vou compartilhar...
Me vi desdobrado, em corpo astral, na beira de um rio....
No meio deste rio de águas correntes, pomba gira das águas dança e roda ao redor de centenas de espíritos
Ressoam os atabaques...
A preta velha, Vovó Maria Conga, chega e se acopla no meu corpo astral...
Fico completamente dominado no mental, não sou mais eu, mas estou plenamente consciente, ouço e vejo tudo...
Pomba gira das águas, um Exu feminino cruzado com Oxum - água doce - chega perto dançando...
Não reconhece, inicialmente a preta velha "escondida" em meu corpo astral
A preta diz: sabe quem fala, é Vovó Maria Conga....
A pomba gira das águas chega até a entidade guia, para de dançar, se ajoelha e beija as mãos da preta velha...
A entidade alisa os cabelos dela, num indizível amor, e diz:
"- Continua filha, continua com a tua dança que os atabaques não pararam...Continua ajudando os maninhos da Terra a se livrarem das suas cargas deletérias pelos seus descontroles sexuais. Todos eles estiveram na sessão desta noite (se referindo a sessão de caridade no terreiro)."
Mostraram-me, com a maior consciência que já tive, uma incorporação completa em desdobramento astral...
O médium não perde a consciência, escuta e ouve tudo, mas não é dono do seu mental. É como um garoto escondido acocorado no cantinho do cinema, não pode sentar na poltrona. Compreendem?
Sente-se a entidade, o rosto se repuxa num envelhecimento, a voz fica rouca igual a dos velhos e um indizível amor e bem estar se instalam...Amor pelos espíritos ditos "marginais" aos fracos e hipócritas da Terra...Sem julgamentos....
Nem sabia que existia exu feminino de limpeza cruzado com água doce...pomba gira das águas....
Fiquei assistindo aquelas centenas de espíritos desdobrados "hipnotizados" ao som dos atabaques. No centro do rio a pomba gira dançando e conforme sua sensualidade os hipnotizava eles entravam nas águas correntes, que na sua correnteza escurecia, ficavam turvas das impurezas dos desmandos sexuais dos encarnados. Foi uma experiência inesquecível.
Lembro novamente que houve vários consulentes com problemas sexuais na sessão de caridade da noite.
Fica a lição que o desdobramento astral, também o induzido pela apometria, pois condiciona os corpos do médium, não invalida a "incorporação".
Facilita a entidade no plano astral.
O que ocorre no terreiro na gira é só uma pontinha da montanha... CREIO QUE O CONCEITO DE DESDOBRAMENTO ASTRAL DEVE SER CADA VEZ MAIS DIFUNDIDO NO MEIO DA UMBANDA...
Tudo isto muito CONSCIENTE. Vamos quebrar tabus.
A INCORPORAÇÃO É COMPLETA EM DESDOBRAMENTO POIS O CORPO FÍSICO É UMA BARREIRA ENERGÉTICA PARA A PLENITUDE DA MANIFESTAÇÃO QUANDO ESTAMOS EM ESTADO DE VIGÍLIA...CLARO, ESTOU FALANDO DE MÉDIUNS NA ATUALIDADE, CONSCIENTES.....
O médium desdobrado e incorporado no Astral pelo guia doa ectoplasma – fluído vital - através do cordão de prata e do duplo etéreo deslocado. Com esta energia, a força mental de Vovó Maria Conga manteve todo aquele cenário plasmado. Os atabaques, uma vibração sonora próxima dos encarnados, criou potente campo de força de atração e retenção, oportunizando uma concha astral que manteve unidos todos os atendidos pelo tempo necessário para a descarga...
Todos desdobrados durante o sono físico. Dois espíritos conduzindo os trabalhos, uma preta velha e uma pomba gira...
Ao menos os que eu vi... eram muitos mais... com certeza...
Na Umbanda, tudo é energia, tudo são vibrações, tudo é movimento e se expressa através dos orixás na natureza transmutadora... Não é LINDA a BANDA?!!
Saravá!
As sutilezas para impedir o médium de comparecer no dia da sessão
As sutilezas para impedir um médium de comparecer nos dias de sessão pública são muitas. Recentemente, uma das médiuns, repentinamente começa a sentir uma dor intensa na perna esquerda, “casualmente” numa sexta-feira que é o dia que ocorrem nossos atendimentos de passes e consultas, havendo grande movimentação de consulentes.
Esta médium falta para ir ao médico, pois não suportou a dor a ponto de não conseguir pisar no chão. Fez vários exames pela medicina terrena e nada de anormal descobriram, ficando sem um diagnóstico conclusivo. E a dor continua um pouco mais branda nos dias seguintes de sua ausência no terreiro.
No dia da próxima sessão, telefona para a secretaria deixando recado que a dor voltou a aumentar e vai ter que ir novamente ao médico.
Quando me deram o recado, estava trocando os elementos do congá, senti uma fisgada na minha perna esquerda e me entrou um pensamento que não era meu, mas que não identifiquei de qual guia, sendo isto de menos importância naquele momento, mas que senti com certeza era de um dos Exus da casa:
Quando me deram o recado, estava trocando os elementos do congá, senti uma fisgada na minha perna esquerda e me entrou um pensamento que não era meu, mas que não identifiquei de qual guia, sendo isto de menos importância naquele momento, mas que senti com certeza era de um dos Exus da casa:
- "Será que esta danada não vai se dar conta que tem coisa aí. Ela tem que vir com dor e tudo. Não diga nada a médium, que precisa se dar conta da situação por seu esforço e merecimento para seu próprio aprendizado mediúnico..."
E chegando a hora da sessão, a médium aparece mancando. Nada falamos.
No ritual de abertura, durante a incorporação dos médiuns da corrente, eu já vibrado no chacra coronário com Caboclo Ventania, repentinamente este guia se afasta de minha sensibilidade e dá passagem do seu aparelho para o Exu Sr.João Caveira, que sutilmente se apropria do meu psiquismo, sendo que não houve nenhuma exteriorização visível à corrente de médiuns para que pudessem perceber a diferença. A intenção foi chamar o menos possível da atenção e não dispersar a concentração, eis que estávamos com aproximadamente 130 pessoas aguardando para serem atendidas. Rapidamente, Sr. João Caveira orienta que continuem o ritual, chama a filha na tronqueira de Exu – local reservado, interno, de firmeza desta vibração dentro do templo, atrás do congá -, pede um charuto e um alguidar – vasilhame de argila - com água. Acende o charuto, mastiga-o e cospe o sumo no alguidar. Ficou uma espécie de lavagem escurecida pelo fumo mastigado, na verdade um tipo de maceração. Ato contínuo, a médium está a postos com a perna dolorida na frente da tronqueira. Aí lava sua perna, mandando-a imediatamente trabalhar e dar consulta normalmente, dizendo que a dor iria passar e que não tinha tempo para maiores palavreados. Recomenda que ela venha na segunda para um atendimento individual e orientação adequada.
E chegando a hora da sessão, a médium aparece mancando. Nada falamos.
No ritual de abertura, durante a incorporação dos médiuns da corrente, eu já vibrado no chacra coronário com Caboclo Ventania, repentinamente este guia se afasta de minha sensibilidade e dá passagem do seu aparelho para o Exu Sr.João Caveira, que sutilmente se apropria do meu psiquismo, sendo que não houve nenhuma exteriorização visível à corrente de médiuns para que pudessem perceber a diferença. A intenção foi chamar o menos possível da atenção e não dispersar a concentração, eis que estávamos com aproximadamente 130 pessoas aguardando para serem atendidas. Rapidamente, Sr. João Caveira orienta que continuem o ritual, chama a filha na tronqueira de Exu – local reservado, interno, de firmeza desta vibração dentro do templo, atrás do congá -, pede um charuto e um alguidar – vasilhame de argila - com água. Acende o charuto, mastiga-o e cospe o sumo no alguidar. Ficou uma espécie de lavagem escurecida pelo fumo mastigado, na verdade um tipo de maceração. Ato contínuo, a médium está a postos com a perna dolorida na frente da tronqueira. Aí lava sua perna, mandando-a imediatamente trabalhar e dar consulta normalmente, dizendo que a dor iria passar e que não tinha tempo para maiores palavreados. Recomenda que ela venha na segunda para um atendimento individual e orientação adequada.
Na segunda-feira, na hora do atendimento da médium, manifesta-se novamente Sr. João Caveira e pede duas moedas e começa a bater uma na outra. Este som serve de chamariz para o espírito do pé gigante que está pedindo esmola, hipnotizado se encontra “grudado” na médium, que por ressonância sente a dor na perna, já que este espírito desencarnou com um tipo de trombose por embolia, que se generalizou na perna entupindo gradativamente os vasos sanguíneos, o que fez inchar enormemente o pé esquerdo, impedindo-o de andar, o que serviu para que ele pedisse esmolas e sobrevivesse disto quando estava “vivo”. Foi encaminhado este sofredor para a linha de OMULU no astral, orixá de cura, para os devidos esclarecimentos e cuidados.
Pergunta então Sr. João Caveira:
Pergunta então Sr. João Caveira:
-“filha, o que acha de pedir esmola e o que você faz com este monte de moedas guardadas em casa?”
A médium diz que tem horror de pedir esmolas e se lembra que tem uma panela velha cheia de moedas antigas no seu quarto e que sempre solicita aos seus parentes moedas para guardar, desde há muito tempo, pois tem o hábito de guardá-las para apreciar, como um tipo de coleção preciosa.
Sr. João Caveira explicou:
A médium diz que tem horror de pedir esmolas e se lembra que tem uma panela velha cheia de moedas antigas no seu quarto e que sempre solicita aos seus parentes moedas para guardar, desde há muito tempo, pois tem o hábito de guardá-las para apreciar, como um tipo de coleção preciosa.
Sr. João Caveira explicou:
- “minha filha, as moedas são movimento, troca, bonança, progresso. Ao deixá-las paradas numa panela esquecida, só para o seu deleite enquanto são de sua posse, o que não significa poupança, impregnaram-se vibrações de avareza e cobiça, imantado o vil metal, que pode atrair espíritos em mesma faixa de sintonia mental, atração esta que é potencializada nos processos de indução obsessiva arquitetados pelos inimigos do terreiro objetivando tirá-los de suas vindas ao trabalho mediúnico.Vocês devem vigiar suas afinidades, manias, cacoetes. A ligação mediúnica é sutil e se dá de forma que não se percebe, as vezes naquilo que é o mais comum na conduta diária. Na maioria dos casos a psicologia para alijar os médiuns é inteligente e certeira.”
Cabe o esclarecimento do motivo das entidades usarem o fumo. Claro está que as folhas da planta chamada "tabaco" que estão enroladas e picotadas formando o charuto absorvem e comprimem uma grande quantidade de fluído vital telúrico enquanto estão em crescimento, cujo poder magnético é liberado através das golfadas de fumaça quando usados pelas entidades. Essa fumaça espargida libera princípios ativos altamente benfeitores, desagregando as partículas densas do ambiente. O tabaco ao ser mastigado e cuspido pelo Sr. João Caveira enquanto estava vibrado no psiquismo do médium, que aos olhos mais zelosos do purismo doutrinário vigente em muitos centros pode parecer um absurdo ou maneirismo indisciplinado dos umbandistas, na verdade liberou seus princípios ativos físicos e químicos que ficaram em suspensão concentrados na saliva e daí foram dispersos ao serem macerados na água, que quando usada na lavagem da perna da médium atendida, serviu como eficaz “detonadora” dos miasmas e vibriões astrais que estavam impregnando a contraparte etérica da sua perna e por um efeito de repercussão vibratória da energia deletéria do obsessor que estava com ela, causando a vermelhidão e a dor.
E quanto à panela velha? Tinha catorze quilos de moedas, das mais antigas às atuais. Foi trazida para o terreiro para ser desmagnetizada, dado que estava servindo como um tipo de amuleto para fixação de espíritos sofredores pedintes de esmolas. As moedas foram lavadas com arruda e guiné, renovando-as na imantação com estas folhas na vibração de Oxoce, orixá regente de nosso congá. Posteriormente as moedas foram alojadas em local propiciatório para geração de axé – energia - para a prosperidade e abundância do terreiro, cujo local não temos autorização de dizer. É o “segredo” para a magia de Exu não perder o encanto.
Iah, ah, ah, ah
Exu João Caveira
Vem das matas da Guiné
Chegou nesta Seara
Prá salvar filhos de fé
Ele vem chegando
Prá trabalhar
Sarava meu pai
Saravá
( do livro DIÁRIO MEDIÚNICO - Editora do Conhecimento )
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Exú Serpente
A Simbologia da Serpente
Desde os tempos mais remotos, a serpente desempenha um papel fundamental em todas as culturas. Associada, antes de tudo, à fonte original da vida, guarda em si grandes paradoxos, podendo significar a luz ou as trevas, o bem ou o mal, a sabedoria ou a paixão cega, a vida ou a morte.
Entre os símbolos primordiais, a serpente é aquele que mais fortemente encerra toda uma complexidade de arquétipos. Presente em todas as culturas, sua imagem mitológica assume sempre um papel fundamental, associada que está, antes de tudo, à essência primordial da natureza, à fonte original de vida, ao princípio organizador do caos, anterior à própria Criação.
A serpente guarda em si intrigantes paradoxos: se por um lado exprime uma ameaça (já que de seu veneno pode sobrevir a morte), por outro, resume no processo de renovação de sua pele todo o intrincado mistério da vida, que se atualiza em movimento rejuvenescente.
Diferentes cultos e cerimônias ritualísticas reverenciam esse réptil sorrateiro, atribuindo-lhe as mais díspares qualidades. As serpentes podem estar associadas a cultos solares ou lunares; a sociedades matriarcais ou patriarcais (quando assumem valores masculinos ou femininos); podem significar a luz ou as trevas; a vida ou a morte; o bem e o mal; a sabedoria ou seu oposto, a paixão cega; representar o falo (por seu corpo assemelhar-se ao bastão) ou mesmo a vulva (conforme se lhe parecem as escamas que a recobrem, bem como o formato de sua goela quando esta se abre para devorar sua presa). Tanto quanto as energias yin e yang expressam no taoísmo as polaridades negativa e positiva que estão por detrás de toda manifestação da natureza, os ofídios, miticamente, ocultam em si a síntese dessa dicotomia universal.
Oroboro: alusão ao processo dinâmico e transformador da vida.
Uma das figuras mais intrigantes do simbolismo alquímico, presente milenarmente em diversas culturas, é a da cobra (ou dragão) que morde o próprio rabo e opera, num movimento circular e contínuo, todo o processo dinâmico e transformador da vida. “Meu fim é meu começo”, diz a cobra nesse ato mágico de devorar-se e cuspir-se, a representar a unidade indiferenciada da vida e seu caráter divino implícito na perfeição do círculo. À serpente devorando a própria cauda, os alquimistas chamaram oroboro. Tal palavra não consta da maioria dos dicionários e, em alguns livros da Grande Obra, aparece grafada como ouroboros, principalmente na língua inglesa.
Outras fontes, menos comumente, escrevem-na uróboro. Particularmente, prefiro o termo oroboro, visto não ter sido nunca tão oportuno em nossa língua nomearmos um símbolo cuja singularidade é a de não ter começo nem fim, por meio de palavra tão especial, que pode ser lida de trás para a frente sem prejuízo sequer de sua pronúncia, transmitindo a idéia de algo que se expressa ciclicamente.
Etimologicamente, o termo tem curiosa explicação: óros, em grego, significa “termo, limite”, podendo ser também “meta, regra ou definição”; borós se traduz por boca, ou voracidade. Oroboro, então, representa aquilo que se delimita ou se atinge pela boca, e também aquilo que se define por sua própria função. Órobos, em grego, ainda significa “planta”, mais especificamente a alfarroba (fruto da alfarrobeira), uma vagem de polpa doce e nutritiva indicada no tratamento das doenças inflamatórias digestivas. O dicionário Aurélio traz para órobo o significado de “cola”, palavra que, além de se referir a outro tipo de árvore (a Cola acuminata), também pode significar “cauda”, conforme certos regionalismos do Brasil.
O mesmo termo é igualmente encontrado na língua espanhola a designar o rabo dos animais. Para orobó (só muda o acento), o Aurélio reserva o sinônimo coleira, em nova referência à aromática árvore acima citada, cujas sementes guardam extrato lenhoso de propriedades estimulantes, semelhantes à cafeína. Coincidentemente, coleira é o nome dado ao colar que cinge o pescoço dos animais, e o oroboro lembra sua forma. Além disso, nossas vísceras intestinais assemelham-se à serpente enrolada, e o aparelho digestivo como um todo (se tomado da boca ao ânus) bem desenha a serpente aprumada, prestes a dar seu bote, a devorar sua presa.
Multicolorida, venenosíssima e devoradora de outros ofídios, a cobra coral pertenceu aos magos, que receberam há muitos milênios a missão de revitalizar no plano material a tradição do arco íris sagrado.
É um símbolo mágico, que na Umbanda está representado pela hierarquia espiritual que atende pelo nome simbólico de: Caboclos e Exú Cobra Coral. Dizem os magos que quando a lei solta uma de suas serpentes mágicas, nem a própria lei consegue recolhê-la sem antes matá-la. Como a lei não mata nada, muito menos um de seus mistérios mágicos por excelência, a coral da lei, continua ativa.
É uma serpente (simbólica) que consegue anular a grande cobra negra sem ter que matá-la; apenas a devora e incorpora seu veneno nas suas listas negras, tornando-se assim, ainda mais poderosa. Todo aquele que tem uma coral à sua direita, esta sendo amparado pela lei.
E quem a tiver pela esquerda, pela lei está sendo vigiado. Este é um comentário simbólico.
A Serpente Dourada simboliza o saber puro, e tal como a coral, jamais foi recolhida à faixa celestial, pois a serpente dourada (o saber) é a única que consegue eliminar a serpente negra (a ignorância) sem sofrer qualquer contaminação.
A serpente está presente em toda a história conhecida pelo ser humano. Na bíblia, ela é a responsável por fazer Adão e Eva sucumbirem ao pecado. Analogicamente, é a responsável por impor a responsabilidade aos homens e ensinar-lhes que Deus lhes deu o livre arbítrio para escolher o caminho a prosseguir.
Falar sobre o Sr. Serpente é tarefa difícil. É muito raro encontrar médiuns que trabalhem com este Exú. Portanto, a descrição abaixo mostra somente sua atuação apenas comigo, pois não tenho nenhum material descritivo ou qualquer outro que reflita este Exú de outras maneiras.
Trabalhar com o Sr. Serpente é sempre um grande evento e sempre traz grandes lições.
Encruzilhadas, calunga, etc… não há campo em que este Exú não faça sua presença.
Conversar com ele é sempre um grande desafio, pois não tolera muita brincadeira. É como andar no fio da navalha, ao menor sinal de fraqueza do consulente é o suficiente para que a conversa fique muito séria e faça este Exú dar verdadeiras lições de vida. Ele muda o tom de uma conversa em apenas uma frase.
É médico por excelência, muito embora não diga se em alguma encarnação tenha sido médico formado ou não. Durante sessões de cura trabalha com água limpa e faz aplicações energéticas nos diversos pontos de energia distribuidos pelo corpo.
É mestre em apontar os erros e mostrar o caminho certo. Assim como um Preto-Velho, dificilmente fala abertamente qual é a resolução de um problema. Ele gosta de criar o ambiente favorável para a resolução destes e mesmo que o problema seja sério, nunca deixa transparecer. É normal os consulentes não entenderem o que este Exú está fazendo quando desempenha seu trabalho e pede que, para que haja a solução, sejam pacientes e procurem sempre o caminho certo.
É normal vê-lo explicando sobre a vida, a morte e a Umbanda neste meio. Quando perguntam a ele algo sobre espiritualismo tem sempre o maior prazer de explicar. Cobra como ninguém o estudo de seu médium e de outros médiuns que venham a trabalhar ao seu lado.
Apresenta-se (perispírito) como caucasiano, magro, alto, cabelos curtos e negros, olhos negros, vestido com roupas brancas simples, sem calçados, com uma capa preta por fora e branca por dentro com seu ponto riscado nela. Traz na cintura uma faixa preta e nesta um punhal de bronze muito bem entalhado e adornado com um rubi no cabo. Em sua mão direita sempre traz um tridente enorme. Manca do pé direito (diz que quando vivo alguém lhe deu um tiro no pé e traz consigo este particular). Mostra um leve sotaque nordestino.
Para os médiuns videntes é comum observar muitas serpentes passando pelo terreiro quando ele está chegando. Também vêem-se as serpentes durantes trabalhos de cura, mesmo que este Exú não esteja diretamente envolvido no trabalho.
É habilíssimo com quiumbas e tem uma paciência e amorosidade ímpar quando trata problemas relacionados a espíritos obsessores. Normalmente, durante uma sessão de desobsessão, o espírito obsessor será trazido para sua falange e trabalhará para ele durante sua evolução.
Acho até que o Sr. Serpente é muito criterioso com relação à outras entidades. Já tive a oportunidade de observá-lo dando broncas em algumas entidades por não cuidarem de correta maneira de seus médiuns.
Sr. Serpente, quando arria no terreiro para trabalhar sempre traz consigo sua Pomba-Gira de beleza inigualável. Ela veste vestido de baile verde-musgo e, segundo os videntes, é de uma beleza estonteante.
Quando lhe perguntaram sobre suas encarnações, mais precisamente a sua origem, a única coisa que respondeu foi:
- Fui eu quem deu a maçã!” – e deu uma gargalhada muito gostosa.
Uma coisa que muito me impressionou foi vê-lo em um procedimento cirúrgico espiritual de um consulente que tinha problema na coluna. Sua atuação foi rápida e indolor. Aplicou o método DO-IN através das mãos do consulente e, de quebra, retirou algumas pedras do rim deste. O consulente nunca mais teve problemas de coluna ou pedras nos rins. A operação não deve ter durado mais que 5 minutos.
Noutro trabalho, Sr. Serpente perguntou a um consulente:
“- Você confia em mim?”
“- Confio totalmente”, respondeu o consulente.
“- Este é seu maior erro. Você confia em quem não conhece. Por que confia em mim?”
“- Confio pelo simples fato do Sr. comparecer e trabalhar nesta casa”.
E eu, médium, imediatamente exclamei ao Exú:
“- Essa foi muito boa, meu pai. E agora??? Ele te pegou!!!”.
E o Exú respondeu aos dois:
“- Você também comparece nesta casa e não confio em você”.
Hilário mas com grande ensinamento.
Em um trabalho em que eu nem estava preparado, visitando a casa de alguns amigos, estes me relataram que ouviam constantemente na sala de casa um grande número de “pessoas” fazendo festa, o que me foi uma grande surpresa pois nunca me disseram nada a respeito. E por mais que pedissem para que deixassem o local eles nunca iam embora.
Senti a presença do Sr. Serpente e, mesmo sem incorporar, uma das pessoas relatou que estava vendo uma serpente enorme “espalhando” espíritos por toda a sala da casa. Não pude mais segurar somente a sua presença. Ele incorporou, limpou a casa e encaminhou cada um que ali estava aos seus devidos lugares. Depois deste evento a casa não apresentou mais problemas até hoje.
Certa vez, pensando no Sr. Serpente e tentando explicar Exú de uma maneira bem simples e que qualquer pessoa compreenda, pedi a ele que me desse uma simples e boa explicação. Mais que rápido ele escreveu:
“Exú é um anjo guerreiro que faz do território inimigo sua morada e seu campo de trabalho.”
Grande sábio, grande amigo. Descobri a pouco tempo que ele esteve comigo desde muito tempo e guia meus passos em todas as ocasiões.
Ódio e mais ódio…
Muitas coisas aconteceram nestes últimos tempos. Ciúmes, inveja e não sei mais o que exatamente. Só porque finalmente resolvi montar um terreiro próprio, por simplesmente não concordar com algumas questões aplicadas em outros terreiros. Ao invés de brigar ou maldizer, resolvi montar um…
Dentre os ataques, demandas, maldizeres, etc, o Sr. Serpente foi questionado a respeito da situação. Como fazer para proteger seu médium e seu filhos do terreiro…
Ele disse simplesmente:
“- Fale para o meu cavalo: quando ele sentir que está havendo demandas basta pensar assim:
- Falar de mim é fácil, difícil é ser como eu!”
Um dos filhos do terreiro pergunta ao Sr. Serpente:
“- Considerando que eu faço o meu trabalho caritativo, sempre tento fazer algo de bom para o meu próximo, levo minha vida de maneira a não prejudicar ninguém, assim mesmo muitos males me acontecem. Não há como estar livre desses males?”
“- Meu filho, ninguém neste plano está livre de certos acontecimentos que, infelizmente, muitos de vocês vêem como ‘males’.
- Ninguém pode ser colocado numa bolha de proteção e ficar imune aos acontecimentos da vida e os percalços que a própria vida lhes impõe.
- Problemas são simples obstáculos que a Lei Divina coloca em vosso caminho para que vocês tenham a possibilidade de transpô-los e assim galgar mais um degrau na escala evolutiva de cada um.
- Qualquer problema que não esteja diretamente relacionado ao seu aprendizado e consequente merecimento, o próprio Alto tomará as providências para que seja imediatamente retirado do vosso caminho.
- Querer estar totalmente livre dos ‘problemas’ infligidos a vocês é estacionar no tempo, visando unicamente o egoísmo e a preguiça.
- Fazer a caridade não quer dizer somente ‘marcar pontos na contabilidade divina’. Fazer a caridade é difícil e muitas vezes incompreendido. Mas com perseverança e parcimônia haverá de dar frutos dos quais você mesmo poderá provar seu sabor, mas sempre na hora certa.
- Considere, meu filho, que se você tem algum tipo de problema com alguma pessoa do meio espiritualista, não adianta ter a idéia de deixar este meio pensando que ‘se não fosse espiritualista essas coisas não me aconteceriam’. Mesmo estando longe do meio, a logística divina colocaria no seu caminho esta mesma pessoa com o mesmo problema, cedo ou tarde no seu conceito, no tempo certo no conceito divino.
A diferença é que estando em alguma outra religião você sequer saberia o porque que certas coisas lhe acontecem e seria muito mais difícil solucionar ou pelo menos saber que você precisa passar por isso.
- Não é dando dinheiro a uma igreja que você compra a sua paz e muito menos a sua evolução.
- Não adianta mudar de religião para tentar se ver livre de problemas. A Lei Divina é aplicada ao indivíduo, e nunca a uma religião, credo, raça, classe social, etc.
- Caminhamos para o UNO e esse caminho chama-se evolução.”
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
"Se todos fizerem assim,a nossa história será outra".
OBS: Essa história foi contada pela Pomba Gira Maria Padilha da 7 Encruzilhadas que trabalha na Egrégora do CECP, visando explicar algumas dinâmicas de trabalho. Os personagens dessa história receberam nomes fictícios.
Carlos se dirige a um Centro de Umbanda aconselhado por um amigo, pois a sua vida está bastante complicada. Sua mãe vive doente, já tendo ido a diversos médicos sem sucesso na cura. O seu pai foi demitido da empresa que trabalhava há mais de 25 anos e vive deprimido e chorando pelos cantos. Ele mesmo desempregado há três anos, vê o seu filho adoecer sem condições de comprar o medicamento. A sua esposa, única ainda empregada, apresenta sérios indícios de fadiga mental e física.
Ao chegar no centro descobre que é dia de consulta com Preto Velho. O seu amigo Cláudio, vai explicando a rotina da casa e como ele deve agir e pedir na hora da consulta.
Chega finalmente a sua vez de se consultar, o seu pensamento está coberto de dúvidas, achando que estava chegando ao fundo do poço ao se dirigir a um terreiro de macumba, falar com uma pessoa que nunca viu antes na vida e abrir o seu coração, suas dúvidas e temores. Num primeiro momento acha graça da posição do médium todo curvado e do jeito de falar, não consegue se aquietar, mas o Preto Velho vai aos pouquinhos ministrando alguns passes e por fim Carlos começa a se abrir.
O Preto Velho a tudo ouve, manifestando de tempos em tempos palavras encorajadoras para o aflito Carlos.
Carlos não entende o por que, mas enquanto ele fala, o Preto Velho vai estalando os dedos em volta dele, olha discretamente para o copo d’água ao lado da vela, joga para cima a fumaça de seu cachimbo, e assim vai firmando e passando as informações para os guardiões que pertencem a egrégora da Casa, que através dos Exus de trabalho partem com a velocidade do pensamento para a casa de Carlos.
Em dado momento, o Preto Velho que está “preso” ao corpo carnal do médium e conseqüentemente com sua visão limitada, utiliza alguns elementos magísticos e ritualísticos para proporcionar alívio ao Carlos.
Diz no final da consulta que irá trabalhar para ele e toda a sua família, dá algumas recomendações sobre como rezar e elevar o pensamento a Deus e se despedem.
Carlos tem alguma sensação de alívio, sente-se mais leve e confiante, mas ao mesmo tempo não acredita que meia dúzia de estalar de dedos vão “resolver” o seu problema… Incrédulo, mas não tão fraco retorna a sua casa sem nem imaginar que a batalha está apenas começando.
O Preto Velho ao ver Carlos se levantar e ir embora sabe que a essa altura toda a egrégora da Casa já está se preparando para a batalha, e, apesar de ainda estar preso ao corpo do médium pelo processo de incorporação, pôde perceber que será grande.
Mas ainda há o que ser feito em terra… Precisa descarregar o seu aparelho e o terreiro. Terminado o saravá ele parte indo se unir com os outros membros da egrégora.
Com o término dos trabalhos, os médiuns começam a ir embora e no Terreiro de Umbanda se faz silêncio. Mas um silêncio apenas aos ouvidos humanos, pois os sons ali emitidos estão numa freqüência diferente dos sons conhecidos nessa Terra.
E os médiuns pensam: “A gira terminou.”
Não meus caros, a “gira” está apenas começando.
A egrégora da Casa está reunida dentro do terreiro aguardando o retorno dos Exus de Trabalhos com as informações reais de cada consulta que foi realizada.
Os Exus vão retornando, um a um.
O Mentor da Casa assiste e faz intervenções quanto às deliberações do Alto, e os Chefes de Linha estabelecem o famoso “quem vai fazer o que”. Tudo isso ocorre em ambiente absolutamente harmônico e organizado.
Exus, Caboclos e Pretos Velhos trocam impressões a respeito dos problemas apresentados e deliberam.
Mas, voltando ao nosso amigo Carlos. (Nesse momento vou dar nomes fictícios também as entidades envolvidas nesse trabalho. Digamos que o Preto Velho que atendeu Carlos chama-se Pai Benedito e o Exu de Trabalho chamado por ele foi Exu Marabô).
Quando Exu Marabô retorna com as informações a respeito do que encontrou na casa de Carlos, o diálogo que se dá é o seguinte:
Marabô: É, Pai Benedito, a situação lá está bem complicada.
Pai Benedito: Eu já suspeitava. O que você viu?
Marabô: A casa do moço Carlos foi totalmente absorvida por uma rede de energia que tem seres bem grotescos mantendo-a firme. Segui buscando a origem dessa rede e me deparei com uma construção logo acima da casa.
Adentrando ao recinto vi uma inteligência poderosa por trás disso, mas sem nenhuma relação direta com nenhum dos envolvidos. Buscando entender a “trama” continuei procurando o porque daquilo e encontrei uma mulher bastante dementada, com um aparelho acoplado em sua nuca e pude “ler” seus pensamentos e “sentir” seus desejos que eram de vingança para com o pai carnal do moço Carlos. Vi também que eles ainda não sabem que o moço Carlos veio aqui no terreiro.
Bem, em resumo: A inteligência envolveu essa pobre infeliz e prometendo-lhe “devolver” o pai do moço Carlos pra ela e suga suas energias que é retro-alimentada pelo sentimento de culpa que o pai do moço Carlos tem. Parece que foi uma aventura dele na juventude, só não me preocupei em saber se desta ou de outra vida, pois achei que os dados que tinha já eram suficientes para podermos trabalhar.
Pai Benedito: Sim, sim… Mais do que suficientes! Não estamos aqui para julgar ninguém. Isso cabe ao Pai.
Bem, nesse caso teremos que destruir essa construção, mas precisamos primeiro recuperar a moça, e já que o pai de Carlos está involuntariamente retro-alimentando a construção, precisaremos de recursos para auxiliar os familiares também.
Assim, Pai Benedito se dirige ao Caboclo Flecha Dourada, responsável pela corrente de desobsessão daquele terreiro e expõe a situação.
Imediatamente o Caboclo determina que a Pomba Gira Figueira irá utilizar os seus elementos magísticos para que a equipe de resgate da Casa recupere a moça e quem mais tenha condições de tratamento e a “equipe de força” destrua a construção e todos os equipamentos dentro dela.
Tarefas distribuídas, eles partem para a construção.
Caboclos, Pretos Velhos e Exus guardam uma certa distância da construção e observam a Pomba Gira Figueira assumir uma configuração praticamente transparente.
Ao chegar perto da construção percebe-se sair de sua boca uma espécie de fumaça enegrecida que começa a tomar conta do ambiente. Logo atrás dela, homens empurram uma espécie de carrinho, que lembram os carrinhos usados em minas de escavação de carvão.
Conforme a Sra. Figueira vai entrando no ambiente tomado por essa fumaça negra, os seres que lá estão caem em profundo sono, sendo resgatados pelos homens e colocados dentro dos carrinhos. A ação dela é rápida. Ninguém percebe a sua presença.
Quando todos são resgatados, a Sra. Figueira começa a manipular a energia dos instrumentos dentro da construção mudando sua forma, plasmando outras energias e transformando os instrumentos em bombas auto-destrutivas.
Finalmente sai da construção e os Exus que compõe a “tropa de choque” ou “equipe de força” passam a detonar a bomba e a destruir a construção e a malha que envolve a construção material na Terra e a prender os seres grotescos que dão sustentação a malha no ponto da construção material.
Caboclos e Pretos Velhos começam a tratar ali mesmo as inteligências retiradas da construção, colocando-os em macas e direcionando aos locais adequados aos tratamentos que irão receber, sob os olhos atentos dos Exus Guardiões, Amparadores e de Trabalho.
Outros partem para a construção material e começam o trabalho individualizado entre os membros da família. Exus fazem o trabalho de limpeza e descarga, resgatando os “perdidos”, para serem encaminhados para os trabalhos de desobsessão da Casa de Umbanda, abrindo espaço e dando condições vibratórias para o trabalho dos Caboclos e Pretos Velhos que é o de inspirar pensamentos de perdão ao pai de Carlos, de esperança no próprio Carlos, saúde e bons eflúvios na esposa e mãe de Carlos. Através de passes magnéticos Caboclos e Pretos Velhos transformam o campo vibratório da casa e cuidam de seus moradores.
Enquanto tudo isso ocorre a casa dorme, e todos são tratados em espírito.
Enquanto isso os médiuns daquele terreiro também dormem em suas casas, mas alguns estão doando ectoplasma, auxiliando nos trabalhos de transmutação energética. Uns participando ativamente e outros observando e aprendendo, através do processo de desdobramento, assistem a boa parte dos trabalhos.
Após o trabalho realizado o Mentor da Casa sorri.
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É claro que todos sabem que de agora em diante é de acordo com o merecimento de cada um, de cada membro dessa família, tudo dependerá do quanto cada um irá lutar para melhorar, mas agora sem as “amarras” ou interferência do Astral Inferior.
A Umbanda através de uma ação conjunta dos componentes da egrégora de uma Casa de Umbanda pôde proporcionar alívio, conforto e libertação aos membros da família e auxílio aos irmãos perdidos nas trevas da ignorância, do ódio, do rancor, do remorso e da culpa.
Mesmo que Carlos nunca mais volte ao terreiro para agradecer a melhora, ou que nunca desperte para a ajuda que recebeu,mesmo que o pai de Carlos nunca se perdoe, a Umbanda se fez presente em Caridade e Amor!
Agora diga com sinceridade, após ler tudo isso você ainda acha que Exu é o Diabo?
Você acha que importa ficarmos discutindo se Exu, a Umbanda e seus Orixás vieram da Atlântida, da África ou do quintal da sua casa?
Se ainda lhe resta alguma dúvida eu afirmo a minha certeza: a Umbanda nasceu do Coração de Zambi em Sua Infinita Misericórdia por nós! Porque só a Umbanda tem quem nos defenda e proteja independentemente da nossa ignorância nos impedir de reconhecê-los como bons e amigos!
Obrigada Exu pela proteção, defesa e principalmente por ter tanta paciência com a nossa ignorância!
Salve os nossos amigos, defensores e compadres! Saravá Exu e Pomba Gira!
Laroyê Exu!!!
sábado, 26 de outubro de 2013
CONVERSA ENTRE EXU E OXALÁ..
O céu e a terra fundiam-se no horizonte distante, parecendo uma coisa só, como se não houvesse separação entre o mundo espiritual e o material, a consciência individual e a cósmica.
Sentado sobre uma pedra em uma enorme montanha, de cabeça baixa e olhos apenas entreabertos, Exu observava o fenômeno da natureza e refletia sobre o seu interminável trabalho.
_Como é difícil a humanidade – pensou em certo momento – parece nunca estar satisfeita, está sempre querendo mais e, em sua essência egoísta desarmoniza tudo, tudo... Tudo que era para ser tão simples acaba tão complicado.
Com os olhos habituados a enxergar na escuridão e na distância, Exu observou cada canto daqueles arredores. Viu pessoas destruindo a si mesmas através de vícios variados, viu maldades premeditadas e outras praticadas como se fossem atos da mais perfeita normalidade. Viu injustiças, principalmente contra os mais fracos e indefesos. Com seus ouvidos, também atentos a tudo, ouviu mentiras, palavras de maledicência, gritos de ódio e sussurros de traição.
Exu suspirou.
_Serei eu o diabo da humanidade? – pensou ironicamente, ao lembrar o quanto era associado à figura do demônio. Passou horas observando coisas que estava habituado a ver todos os dias: mentiras, fraudes, corrupção, traições, inveja, e uma gama enorme de sentimentos negativos.
Foi quando estava imerso nesses pensamentos que Exu ouviu uma voz ao seu lado, dizendo naquele tom austero, porém complacente:
_Laroyê, Senhor Falante.
Exu ergueu os olhos e vislumbrou a figura altiva de Oxalá.
_Èpa Bàbá – respondeu Exu, fazendo um pequeno movimento com a cabeça, em sinal de respeito.
_Noto que está pensativo, amigo Exu – falou Oxalá.
Exu respirou fundo, contemplou novamente o horizonte e respondeu:
_Trabalhamos tanto... e incansavelmente, mas os homens parecem não valorizar nosso esforço.
Oxalá moveu os lábios para dizer algo, mas antes que isso acontecesse, Exu, como que prevendo o que seria dito, continuou:
_Não falo em tom de reclamação, sou um trabalhador incansável e o amigo sabe disso. É com prazer que levo o que tem ser levado e retiro o que deve ser retirado. É com satisfação que abro ou fecho os caminhos, de acordo com a necessidade de cada um, é com resignação que acolho sobre minhas costas largas a culpa do mal que muitos espíritos encarnados e desencarnados fazem, não reclamo do meu trabalho. Sou Exu, para mim não existe frio ou calor, cansaço ou preguiça, existe apenas a necessidade de cumprir a tarefa para qual fui designado.
_Se mostra tão resignado e, no entanto, parece que deixa-se abater pelo desânimo – comentou Oxalá, apoiando-se em seu paxorô.
Exu soltou uma gargalhada, ao que Oxalá deu um leve sorriso, com um movimento quase imperceptível no canto direito dos lábios.
_Não sou resignado nem tampouco estou desanimado – falou Exu – estou pensativo sobre pouca inteligência dos homens. Veja só: como responsável pela aplicação da Lei Cármica observo muita coisa. Observo não apenas o sofrimento que alguns homens impõem a si mesmos, mas vejo também as incessantes oportunidades que o Universo dá a cada um dos seres que habitam a Terra. O aprendizado que tanto precisam lhes é dado por bem, mas quase nunca enxergam pelo amor, então lhes é dada a oportunidade de aprender pela dor, mas geralmente só lembram a lição enquanto a dor está a alfinetar sua carne. Com o alívio vem o esquecimento e todos os erros e vícios voltam a aflorar.
Oxalá fez menção de dizer algo, mas com o dedo em riste entre os lábios, novamente Exu o impediu de falar.
_Ouça – disse Exu, colocando a mão em concha na orelha, como se ele e Oxalá precisassem disso para ouvir melhor. E ambos ouviram o som que vinha da Terra. O som da inveja, dos maus sentimentos, da maledicência, da promiscuidade, da ganância. Exu deu outra gargalhada e disse:
_Percebe? Temos trabalho por muitos séculos ainda.
_E isso não é bom? – perguntou Oxalá, que dessa vez não deixou Exu responder e continuou:
_Pobres homens, ignorantes da própria grandeza espiritual e da simplicidade do Universo. Se não desconhecessem tanto o funcionamento das coisas, seriam mais felizes.
_Não estão preocupados em discernir o bem do mal – resmungou Exu.
_E você está, Senhor Falante? – tornou Oxalá.
Mais uma vez Exu gargalhou.
_Para mim não existe o bem ou o mal. Existe o justo, bem sabe disso.
_Então por que tenta exigir esse discernimento dos pobres homens?
_Eu conheço os caminhos – respondeu Exu um tanto irritado – para mim não existem obstáculos, todos os caminhos se abrem em encruzilhadas. Para mim as portas nunca se fecham e as correntes nunca prendem. Conheço o sutil mistério que separa aquilo que chamam de bem daquilo que chamam de mal. Não sou maniqueísta, não sou benevolente, pois não dou a quem não merece, mas também não sou cruel, pois sempre ajo dentro da Lei. Os homens, coitados, acreditam na visão simplista do bem e do mal, como se todo o Universo, em sua “complexa simplicidade” se resumisse apenas entre o bem e o mal.
_Pobres homens – repetiu Oxalá.
_Pobres homens – concordou Exu – mesmo olhando o Universo de uma forma tão simplista, dividido apenas entre bem e mal, acabam sempre demonizando tudo, achando que o mal é o melhor caminho para conseguir o que desejam ou então acreditam que são eternas vítimas do mal. E o que é pior, quase sempre eu é que sou o culpado.
_Mas é você o responsável pelo mal? – perguntou Oxalá, admirando o horizonte.
_Sou justo, apenas isso – respondeu Exu.
_Não seria a justiça uma prerrogativa de Xangô? – tornou o maior dos orixás.
Exu olhou fundo nos olhos de Oxalá e respondeu:
_Estou a serviço do Universo, de cada uma das forças que o compõe, inclusive do Senhor da Justiça.
_Isso significa que trabalha em harmonia com o Universo, caro Exu?
_Imaginei que soubesse disso – respondeu Exu, irônico como sempre.
_Acho que sempre soube. Quando observo o horizonte e vejo o céu fundindo-se à Terra, percebo o quanto o material pode estar ligado ao espiritual. Mas também lembro que o sol vai raiar e acredito que apesar de todas as dificuldades que os próprios homens criam, é possível acender a chama da fé em seus corações. Percebo o quanto eles são falhos, mas percebo também o quanto são frágeis e precisam de nós – e nesse momento pousou a mão sobre o ombro de Exu – sejam dos que trabalham na luz ou na escuridão, pois tudo faz parte do Uno e se inter-relacionam. O mesmo homem que hoje está nas profundezas mais abissais, amanhã pode ser o mensageiro da luz.
Exu olhou para os olhos de Oxalá, como se não estivesse concordando, mas dessa vez foi Oxalá quem não deixou que o outro falasse, prosseguindo com sua narrativa:
_Se não fossem os valorosos guardiões que trabalham nas regiões trevosas, dificilmente os que ali sofrem um dia alcançariam o benefício da luz. Se houvesse apenas a luz, não haveria o aprendizado, que tem como ponto de partida o desconhecimento, as trevas. O Universo tão simples é ao mesmo tempo tão inteligente, que mesmo nós, que observamos os homens a uma distância grande, às vezes nos surpreendemos com sua magnitude. Os homens são frutos que precisam amadurecer e você, amigo Exu, é a estufa que os aquece até o ponto certo da maturação e eu sou a mão que os colhe como frutos amadurecidos.
_Quem diria que trabalhamos em harmonia? – disse Exu em meio a um sorriso – acreditam que vivemos a digladiar quando na verdade trabalhamos em busca de um mesmo objetivo: o aprimoramento da raça humana.
Oxalá só não soltou uma gargalhada porque não era esse seu hábito (e sim o de Exu), mas disse sem conseguir esconder o contentamento:
_Então, companheiro Exu, não temos porque lamentar. A ignorância em que vivem os homens é sinal de que ainda temos trabalho a realizar. A pouca sabedoria que possuem significa que ainda estão muito próximos ao ponto de partida e cabe a nós, não importa se chamados de “direita” ou “esquerda”, auxiliá-los em sua caminhada, que é muito longa ainda. Apenas contemplar as mazelas dos corações humanos não irá auxiliá-los em nada. Sou a luz que guia os olhos da humanidade e você é o movimento que não a deixa estática. Se pararmos por um segundo sequer, atrasaremos em séculos e séculos o progresso da raça humana, que tanto depende de nós.
Nesse momento o sol começou a raiar timidamente no horizonte, separando o céu e a Terra. Exu levantou-se da sua pedra e se pôs a caminhar montanha abaixo.
_Aonde vai, Senhor Falante? – perguntou Oxalá, como se não soubesse.
_Vou trabalhar, Senhor dos Orixás – respondeu Exu gargalhando novamente – Esqueceu que sou um trabalhador incansável e que trabalho em harmonia com o Universo, mesmo que ele me imponha a luz do sol?
Oxalá não respondeu, mas esboçou um sorriso tímido. Assim trabalhava o Universo: sempre em harmonia. Os homens, mesmo ainda presos a tantos conceitos primários, trilhavam os primeiros passos em direção ao progresso, pois não estavam órfãos de seus orixás e protetores.
Sentado sobre uma pedra em uma enorme montanha, de cabeça baixa e olhos apenas entreabertos, Exu observava o fenômeno da natureza e refletia sobre o seu interminável trabalho.
_Como é difícil a humanidade – pensou em certo momento – parece nunca estar satisfeita, está sempre querendo mais e, em sua essência egoísta desarmoniza tudo, tudo... Tudo que era para ser tão simples acaba tão complicado.
Com os olhos habituados a enxergar na escuridão e na distância, Exu observou cada canto daqueles arredores. Viu pessoas destruindo a si mesmas através de vícios variados, viu maldades premeditadas e outras praticadas como se fossem atos da mais perfeita normalidade. Viu injustiças, principalmente contra os mais fracos e indefesos. Com seus ouvidos, também atentos a tudo, ouviu mentiras, palavras de maledicência, gritos de ódio e sussurros de traição.
Exu suspirou.
_Serei eu o diabo da humanidade? – pensou ironicamente, ao lembrar o quanto era associado à figura do demônio. Passou horas observando coisas que estava habituado a ver todos os dias: mentiras, fraudes, corrupção, traições, inveja, e uma gama enorme de sentimentos negativos.
Foi quando estava imerso nesses pensamentos que Exu ouviu uma voz ao seu lado, dizendo naquele tom austero, porém complacente:
_Laroyê, Senhor Falante.
Exu ergueu os olhos e vislumbrou a figura altiva de Oxalá.
_Èpa Bàbá – respondeu Exu, fazendo um pequeno movimento com a cabeça, em sinal de respeito.
_Noto que está pensativo, amigo Exu – falou Oxalá.
Exu respirou fundo, contemplou novamente o horizonte e respondeu:
_Trabalhamos tanto... e incansavelmente, mas os homens parecem não valorizar nosso esforço.
Oxalá moveu os lábios para dizer algo, mas antes que isso acontecesse, Exu, como que prevendo o que seria dito, continuou:
_Não falo em tom de reclamação, sou um trabalhador incansável e o amigo sabe disso. É com prazer que levo o que tem ser levado e retiro o que deve ser retirado. É com satisfação que abro ou fecho os caminhos, de acordo com a necessidade de cada um, é com resignação que acolho sobre minhas costas largas a culpa do mal que muitos espíritos encarnados e desencarnados fazem, não reclamo do meu trabalho. Sou Exu, para mim não existe frio ou calor, cansaço ou preguiça, existe apenas a necessidade de cumprir a tarefa para qual fui designado.
_Se mostra tão resignado e, no entanto, parece que deixa-se abater pelo desânimo – comentou Oxalá, apoiando-se em seu paxorô.
Exu soltou uma gargalhada, ao que Oxalá deu um leve sorriso, com um movimento quase imperceptível no canto direito dos lábios.
_Não sou resignado nem tampouco estou desanimado – falou Exu – estou pensativo sobre pouca inteligência dos homens. Veja só: como responsável pela aplicação da Lei Cármica observo muita coisa. Observo não apenas o sofrimento que alguns homens impõem a si mesmos, mas vejo também as incessantes oportunidades que o Universo dá a cada um dos seres que habitam a Terra. O aprendizado que tanto precisam lhes é dado por bem, mas quase nunca enxergam pelo amor, então lhes é dada a oportunidade de aprender pela dor, mas geralmente só lembram a lição enquanto a dor está a alfinetar sua carne. Com o alívio vem o esquecimento e todos os erros e vícios voltam a aflorar.
Oxalá fez menção de dizer algo, mas com o dedo em riste entre os lábios, novamente Exu o impediu de falar.
_Ouça – disse Exu, colocando a mão em concha na orelha, como se ele e Oxalá precisassem disso para ouvir melhor. E ambos ouviram o som que vinha da Terra. O som da inveja, dos maus sentimentos, da maledicência, da promiscuidade, da ganância. Exu deu outra gargalhada e disse:
_Percebe? Temos trabalho por muitos séculos ainda.
_E isso não é bom? – perguntou Oxalá, que dessa vez não deixou Exu responder e continuou:
_Pobres homens, ignorantes da própria grandeza espiritual e da simplicidade do Universo. Se não desconhecessem tanto o funcionamento das coisas, seriam mais felizes.
_Não estão preocupados em discernir o bem do mal – resmungou Exu.
_E você está, Senhor Falante? – tornou Oxalá.
Mais uma vez Exu gargalhou.
_Para mim não existe o bem ou o mal. Existe o justo, bem sabe disso.
_Então por que tenta exigir esse discernimento dos pobres homens?
_Eu conheço os caminhos – respondeu Exu um tanto irritado – para mim não existem obstáculos, todos os caminhos se abrem em encruzilhadas. Para mim as portas nunca se fecham e as correntes nunca prendem. Conheço o sutil mistério que separa aquilo que chamam de bem daquilo que chamam de mal. Não sou maniqueísta, não sou benevolente, pois não dou a quem não merece, mas também não sou cruel, pois sempre ajo dentro da Lei. Os homens, coitados, acreditam na visão simplista do bem e do mal, como se todo o Universo, em sua “complexa simplicidade” se resumisse apenas entre o bem e o mal.
_Pobres homens – repetiu Oxalá.
_Pobres homens – concordou Exu – mesmo olhando o Universo de uma forma tão simplista, dividido apenas entre bem e mal, acabam sempre demonizando tudo, achando que o mal é o melhor caminho para conseguir o que desejam ou então acreditam que são eternas vítimas do mal. E o que é pior, quase sempre eu é que sou o culpado.
_Mas é você o responsável pelo mal? – perguntou Oxalá, admirando o horizonte.
_Sou justo, apenas isso – respondeu Exu.
_Não seria a justiça uma prerrogativa de Xangô? – tornou o maior dos orixás.
Exu olhou fundo nos olhos de Oxalá e respondeu:
_Estou a serviço do Universo, de cada uma das forças que o compõe, inclusive do Senhor da Justiça.
_Isso significa que trabalha em harmonia com o Universo, caro Exu?
_Imaginei que soubesse disso – respondeu Exu, irônico como sempre.
_Acho que sempre soube. Quando observo o horizonte e vejo o céu fundindo-se à Terra, percebo o quanto o material pode estar ligado ao espiritual. Mas também lembro que o sol vai raiar e acredito que apesar de todas as dificuldades que os próprios homens criam, é possível acender a chama da fé em seus corações. Percebo o quanto eles são falhos, mas percebo também o quanto são frágeis e precisam de nós – e nesse momento pousou a mão sobre o ombro de Exu – sejam dos que trabalham na luz ou na escuridão, pois tudo faz parte do Uno e se inter-relacionam. O mesmo homem que hoje está nas profundezas mais abissais, amanhã pode ser o mensageiro da luz.
Exu olhou para os olhos de Oxalá, como se não estivesse concordando, mas dessa vez foi Oxalá quem não deixou que o outro falasse, prosseguindo com sua narrativa:
_Se não fossem os valorosos guardiões que trabalham nas regiões trevosas, dificilmente os que ali sofrem um dia alcançariam o benefício da luz. Se houvesse apenas a luz, não haveria o aprendizado, que tem como ponto de partida o desconhecimento, as trevas. O Universo tão simples é ao mesmo tempo tão inteligente, que mesmo nós, que observamos os homens a uma distância grande, às vezes nos surpreendemos com sua magnitude. Os homens são frutos que precisam amadurecer e você, amigo Exu, é a estufa que os aquece até o ponto certo da maturação e eu sou a mão que os colhe como frutos amadurecidos.
_Quem diria que trabalhamos em harmonia? – disse Exu em meio a um sorriso – acreditam que vivemos a digladiar quando na verdade trabalhamos em busca de um mesmo objetivo: o aprimoramento da raça humana.
Oxalá só não soltou uma gargalhada porque não era esse seu hábito (e sim o de Exu), mas disse sem conseguir esconder o contentamento:
_Então, companheiro Exu, não temos porque lamentar. A ignorância em que vivem os homens é sinal de que ainda temos trabalho a realizar. A pouca sabedoria que possuem significa que ainda estão muito próximos ao ponto de partida e cabe a nós, não importa se chamados de “direita” ou “esquerda”, auxiliá-los em sua caminhada, que é muito longa ainda. Apenas contemplar as mazelas dos corações humanos não irá auxiliá-los em nada. Sou a luz que guia os olhos da humanidade e você é o movimento que não a deixa estática. Se pararmos por um segundo sequer, atrasaremos em séculos e séculos o progresso da raça humana, que tanto depende de nós.
Nesse momento o sol começou a raiar timidamente no horizonte, separando o céu e a Terra. Exu levantou-se da sua pedra e se pôs a caminhar montanha abaixo.
_Aonde vai, Senhor Falante? – perguntou Oxalá, como se não soubesse.
_Vou trabalhar, Senhor dos Orixás – respondeu Exu gargalhando novamente – Esqueceu que sou um trabalhador incansável e que trabalho em harmonia com o Universo, mesmo que ele me imponha a luz do sol?
Oxalá não respondeu, mas esboçou um sorriso tímido. Assim trabalhava o Universo: sempre em harmonia. Os homens, mesmo ainda presos a tantos conceitos primários, trilhavam os primeiros passos em direção ao progresso, pois não estavam órfãos de seus orixás e protetores.
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