domingo, 17 de maio de 2026

História da Pomba Gira Bruxa de Évora: O Mistério e o Poder que Cruzaram Oceanos

 

História da Pomba Gira Bruxa de Évora: O Mistério e o Poder que Cruzaram Oceanos

História da Pomba Gira Bruxa de Évora: O Mistério e o Poder que Cruzaram Oceanos

Laroiê, Pomba Gira Bruxa de Évora! Ela é uma das entidades mais enigmáticas, poderosas e pouco conhecidas da Umbanda, cercada de segredos, sabedoria ancestral e uma força mágica que atravessou séculos e continentes. Diferente de outras pombas giras que têm traços ou características bem definidas, a Bruxa de Évora é mutável: obedece a todas as Yabás, as orixás femininas, e por isso se apresenta da forma que for necessária — ora como uma senhora de semblante sério e sábio, ora como uma dama elegante e misteriosa, ora como uma moça bonita, faceira e cheia de energia. A sua forma muda, mas o seu poder permanece sempre o mesmo: absoluto e profundo.

Origem: A Moura que Dominou as Artes Mágicas

A sua história começa na Península Ibérica, nos tempos antigos. Ela era uma mulher de origem moura, criada e educada por uma tia velha, que era grande conhecedora de todos os mistérios da natureza, das estrelas e das forças ocultas. Com ela, aprendeu tudo o que se pode saber sobre magia, feitiçaria e encantamentos. Antes de partir, a sua tia lhe entregou objetos sagrados, verdadeiros talismãs que carregava sempre consigo:
  • Sete moedas de ouro do califa Omir, símbolos de poder e riqueza espiritual;
  • Uma pedra ágata gravada com inscrições em árabe, que guardava segredos dos antepassados;
  • Uma chapa de prata com o nome do profeta, para proteção e ligação com o divino.
Naqueles tempos, era conhecida também por Moura Torta. Vestia-se com trapos simples, mas no seu peito brilhava um amuleto de âmbar que ninguém ousava tocar. Era uma mulher de cultura vasta: falava árabe, português e latim, lia e interpretava o Alcorão, dominava a matemática e, com apenas um olhar para o céu, compreendia o movimento das estrelas e o que elas revelavam sobre o destino. Ela lia a sorte nas areias, nos astros, nas linhas da mão e nos sinais da natureza. Tinha em si a sabedoria dos seus antepassados muçulmanos, mas também, vivendo no século XIII, absorveu todo o conhecimento dos povos celtas que habitavam aquelas terras, unindo duas grandes correntes de magia numa só alma.

Magia, Voos e Companheiros

Dizem as lendas que ela tinha o dom de voar, e o fazia montada em animais que representam força, instinto e ligação com o mundo espiritual: cães, lobos, camelos, carneiros e também na tradicional vassoura. Mas o seu meio de transporte preferido, e o que mais marcou a sua imagem, era um bode preto. Esse animal sempre foi ligado à magia antiga, ao poder da feitiçaria, à sensualidade e à força criativa — representava também a ligação entre o mundo humano e o mundo espiritual, algo que ela dominava com mestria.
A Bruxa de Évora também caminhava lado a lado com seres poderosos, e tinha uma relação especial com os dragões, que eram seus guardiões e companheiros. Ela os chamava por nomes que revelavam a sua grandiosidade: O Terrível, O Magnífico, O Senhor do Mundo, O Guardião.
Além desses, tinha uma corte de espíritos e entidades que a serviam e a acompanhavam em todos os seus trabalhos, figuras de hierarquia e poder imensos:
  • Abalan: um príncipe espiritual;
  • Abigor: entidade de ordem superior;
  • Abrahel: ser de natureza sedutora e enérgica;
  • Asmodeu e Adramelech: figuras de comando e decisão;
  • Hecate: a deusa dos caminhos, da magia e da noite;
  • Lúcifer: o maioral, o senhor da luz e da transformação;
  • E também Marbas, Rowe e muitos outros espíritos de sabedoria e força.
Os gatos, animais ligados à lua, à noite e ao mundo invisível, eram seus grandes amigos. Acreditava-se que eles transportavam almas e enxergavam o que os olhos humanos não podiam ver. A Bruxa de Évora tinha um fiel companheiro: um gato preto chamado Lusbel, que sempre estava ao seu lado, observando tudo com aqueles olhos que pareciam conter todo o segredo do universo.

O Poder que Atravessou o Mar

Durante gerações, ela foi temida e respeitada na Península Ibérica. Possuía um caderno grosso, cheio de anotações, onde estavam registradas todas as suas criações: poções, feitiços, bruxedos, encantamentos, banhos, rezas e rituais de todos os tipos, para todos os fins — desde cura e proteção, até resoluções de amor, sucesso e justiça.
Quando os navegantes portugueses vieram para o Brasil, a Bruxa de Évora veio junto, trazida na bagagem espiritual do povo luso. Aqui, a sua magia encontrou terreno fértil: misturou-se com as crenças dos povos indígenas, com as tradições africanas e com a Umbanda, criando raízes profundas e se tornando uma força essencial para quem busca respostas além do que é visível.
Mesmo sendo uma entidade envolta em mistério e respeitada pela sua força intensa, ela é muito procurada por aqueles que precisam de ajuda. Seus trabalhos são eficazes: ela domina sortilégios, amarrações, descarregos, limpezas e rituais que desfazem energias ruins, atraem o amor, trazem sucesso e afastam males.

Seus Gostos e Seus Sinais

Hoje, quando se manifesta nos terreiros, a Pomba Gira Bruxa de Évora traz consigo toda a sua história e a sua personalidade única. Ela gosta de coisas que lembram a nobreza, o prazer e o mistério: aprecia champanhe para brindar a vida e as vitórias, e cigarrilhas, que usa para fumar e com a fumaça limpar, abençoar e espalhar a sua proteção.
Ela é a guardiã dos segredos antigos, a senhora das poções e dos encantos, a mulher que foi moura, bruxa e rainha da magia, e que hoje caminha ao lado das Yabás para ajudar os filhos de fé.
Laroiê, poderosa Pomba Gira Bruxa de Évora! Que a sua sabedoria e a sua força sempre nos iluminem!