Dona 7 Ossada: A Pomba-Gira que nasceu entre ossos e foi coroada pela dor e pelo amor
Dona 7 Ossada: A Pomba-Gira que nasceu entre ossos e foi coroada pela dor e pelo amor
Umbanda • Pomba-Giras • Linha de Omulu e Iansã
Dona 7 Ossada é uma das entidades mais tocantes, singulares e cheias de lições que existem no panteão da Umbanda. Sua história está entrelaçada com a morte, com o cemitério, com o sofrimento e com o preconceito, mas também com a gratidão, a fidelidade e a proteção divina. Diferente de muitas outras Pomba-Giras que atuam nas ruas, nas festas ou nas encruzilhadas, ela tem a sua morada e o seu coração dentro dos cemitérios — mas não se engane: ela não é uma entidade de escuridão, nem de maldade. Pelo contrário, é uma espírito de luz, extremamente humilde, de coração bom e que veio para ajudar, consolar e amparar quem sofre, assim como um dia ela sofreu.
Seu nome já carrega todo o sentido da sua origem: 7 Ossada, uma referência ao lugar onde nasceu, viveu, morreu e onde hoje exerce a sua missão espiritual. Ela veste-se quase sempre de roxo — cor que representa o luto, a dor, a espiritualidade profunda, a ligação com os mistérios da morte e também a realeza espiritual que conquistou com a sua trajetória de vida. Dizem que é difícil encontrá-la por aí, que ela se mantém reservada e discreta, mas basta chamar pelo seu nome com fé, respeito e sinceridade, que ela aparece pronta para atender e acolher.
A História: Nascer na morte, crescer no desprezo, viver no amor e morrer na dor
Tudo começou em uma família muito humilde, de poucos recursos, que vivia perto do cemitério da cidade. O pai de Eloina — seu nome de vida — trabalhava justamente no campo santo, fazendo os serviços mais simples e pesados para garantir o pão de cada dia. Dona Custódia, sua mãe, já estava com a gravidez bem avançada, com nove meses completos, quando uma forte dor começou a tomar conta do seu corpo, ainda dentro do próprio cemitério, enquanto ajudava o marido ou esperava por ele.
O sangramento foi muito grande, assustando a todos que estavam por perto. Chamaram rapidamente uma parteira da região, que ao chegar, examinou Dona Custódia e logo disse, com tristeza:— Essa criança vai morrer, senhora. O senhor está perdendo muito sangue, não há como salvar nem a senhora, nem o bebê.
Mas Dona Custódia, cheia de fé e desespero, ergueu os olhos para o céu e para o cemitério ao seu redor, e orou com toda a força da sua alma:— Meu Pai Omulu! Eu te suplico, deixe a minha filha nascer! Eu entrego ela nas suas mãos, para que tu cuides dela por toda a vida!
Naquele instante, como se a própria morte tivesse recuado diante da fé daquela mãe, a criança nasceu. Nasceu viva, saudável e muito bonita — mas com uma marca que ninguém mais poderia apagar: veio ao mundo dentro de uma nixeira, aqueles espaços de parede onde são colocados os ossos e restos mortais, cheia de restos de ossadas, dentro do próprio cemitério.
Ela recebeu o nome de Eloina. Desde pequena, sua mãe repetia sempre a mesma lição, gravada no coração para sempre:— Eloina, minha filha, quando você precisar de ajuda, quando estiver sozinha ou com medo, chame por Omulu. Foi ele, o Senhor dos Mortos e dos Mistérios, que livrou você da morte antes mesmo de você respirar. Por isso, nós somos gratos a ele para sempre, e ele é o seu padrinho e protetor.
Mas o mundo dos homens não tem a mesma sabedoria dos Orixás. O povo da cidade, ao saber onde e como Eloina havia nascido, encheu-se de preconceito, medo e ignorância. Chamavam-na de “Filha da Morte”, de “Filha do Diabo”, olhavam-na com desdém, com medo ou com repulsa. Ninguém queria chegar perto, ninguém queria brincar com ela, ninguém a aceitava. Eloina cresceu uma criança muito solitária, que tinha apenas o amor dos seus pais e a presença invisível e forte de Omulu, que nunca a abandonou.
Com o tempo, a menina cresceu e tornou-se uma jovem de beleza rara, encantadora, que chamava a atenção de todos por onde passava. Muitos homens a desejavam secretamente, mas ninguém tinha coragem de se aproximar. Corria na cidade uma lenda cruel: “O homem que se deitar com Eloina, a Filha da Morte, vai morrer logo em seguida”. Por causa disso, ela permanecia sozinha, mesmo sendo tão bonita e tendo um coração doce, bom e cheio de amor para dar.
A vida lhe deu os primeiros golpes fortes quando ainda era jovem: seu pai adoeceu com tuberculose e, com a saúde abalada e poucos recursos, acabou falecendo. Pouco tempo depois, sua mãe, Dona Custódia, que já vivia triste e sofrendo com a vida, caiu acidentalmente dentro de um poço e morreu afogada.
Eloina ficou sozinha no mundo. Sem família, sem amigos, desprezada pela maioria das pessoas. Ela ergueu os olhos para o céu e para o cemitério, como aprendera desde pequena, e chorou:— Meu Padrinho Omulu! Não me deixe sozinha nesse mundo, por favor! Cuide de mim, como a minha mãe pediu.
Para sobreviver, ela começou a fazer o mesmo trabalho que o seu pai: passou a trabalhar no cemitério, limpando túmulos, arrumando as sepulturas, cuidando das flores, vivendo e convivendo diariamente com a morte, que para ela nunca foi algo ruim, mas sim um lugar de proteção e paz.
Um dia, um rapaz da cidade, que não tinha medo de lendas nem de conversas de rua, viu Eloina e logo se apaixonou perdidamente por ela. Ele não ligou para o que diziam, não ligou para onde ela tinha nascido, não ligou para os apelidos cruéis. Chegou perto, conversou, e descobriu que, por trás da beleza, havia uma mulher de coração imenso, doce e cheia de amor. Eloina também se apaixonou por ele, e quando ele a beijou pela primeira vez, ela sentiu que não estava mais sozinha.
Se casaram, e a cidade inteira falava: “Ele vai morrer! Ele não vai durar muito tempo!”. Mas o marido dela sorria e respondia com orgulho:— Se eu morrer, vou morrer muito feliz, porque conquistei o coração da mulher mais bonita e mais especial dessa cidade!
Mas a morte não o levou. A lenda caiu por terra, e com o tempo, muitos outros homens passaram a cobiçar Eloina, vendo que a história de mau agouro não era verdadeira. Ela teve muitos filhos, criou-os com todo amor e dedicação, e sempre foi uma mulher extremamente fiel, devota e entregue ao seu casamento. Nenhuma riqueza, nenhuma paquera, nenhuma proposta mudou o seu coração — ela pertencia ao seu marido e à sua família.
Mas a dor, que sempre esteve presente na sua vida, voltou com força total quando os filhos já eram crescidos. O homem que ela amava, que havia enfrentado todo o preconceito da cidade para ficar com ela, resolveu traí-la. Se apaixonou por outra mulher e, sem olhar para tudo o que viveram, abandonou Eloina, deixando-a destruída por dentro.
Ela ficou desesperada, sem entender o porquê de tanta dor. Primeiro o desprezo de todos, depois a perda dos pais, e agora, a traição e o abandono da única pessoa que ela pensou que nunca a deixaria. Muito triste, com o coração partido, ela foi até o lugar que sempre foi o seu refúgio: o cemitério. Entrou na mesma nixeira onde havia nascido, onde estava o seu primeiro sopro de vida, e lá se encolheu, mergulhada numa depressão profunda.
Eloina parou de comer, parou de falar, parou de viver. Passou os seus últimos dias apenas bebendo cachaça, olhando para os ossos ao seu redor, pensando na vida que teve. E foi ali, dentro daquela nixeira, que ela faleceu — sozinha, triste, mas com a consciência limpa e o coração bom.
Quando o povo da cidade soube da sua morte, sentiu um remorso enorme. Todos perceberam o quanto tinham sido maus, o quanto julgaram, o quanto maltrataram uma pessoa que nunca fez mal a ninguém. Começaram a ir até o cemitério, levavam rosas, flores, faziam orações, pediam perdão em voz alta, lamentando todo o mal que causaram a ela em vida.
Ao desencarnar, a sua alma foi recebida com honra e glória. Omulu, o seu padrinho e protetor, ao lado de Iansã, a Senhora das Tempestades, das Almas e das Transformações, coroaram-na, elevando a sua espiritualidade e dando-lhe uma missão de luz: vir para a Umbanda como uma grande Pomba-Gira, para ajudar todas as pessoas que sofrem, que são injustiçadas, que passam por traições, desprezo, solidão ou dor no coração.
Quem é Dona 7 Ossada na Umbanda?
Hoje, Dona 7 Ossada é uma entidade profundamente respeitada e querida. Ela carrega consigo toda a sabedoria de quem conheceu a dor, a rejeição e a solidão, e por isso sabe exatamente como acolher quem está sofrendo.
✅ A sua morada: Está firmada nos cemitérios, entre as almas que partiram, nos túmulos e nas nixeiras. Mas isso não significa que ela seja negativa ou pesada: ao contrário, ela transformou o lugar da sua dor no lugar da sua força e da sua proteção.
✅ A sua índole: É uma Pomba-Gira extremamente humilde, simples, de fala mansa e coração generoso. Ela não trabalha para o mal, nunca fará ninguém sofrer, nunca fará maldades, nunca se vingará de ninguém. Sua energia é de cura, de consolo, de limpeza e de justiça.
✅ O que ela faz: Ela atua principalmente:
- Ajudando pessoas que sofrem preconceito, rejeição ou discriminação;
- Amparando mulheres que foram traídas, abandonadas ou magoadas no amor;
- Dando força a quem está deprimido, triste ou se sentindo sozinho no mundo;
- Acolhendo almas sofredoras e fazendo a ligação entre o mundo material e o espiritual, com a permissão de Omulu;
- Limpando energias ruins, mágoas e sentimentos que prendem o coração das pessoas.
✅ Seu símbolo e vestuário: O roxo é a sua cor sagrada, representando todo o seu caminho, sua ligação com o cemitério e a sua elevação espiritual. Quando se manifesta, costuma trazer consigo a simplicidade e a serenidade que sempre marcaram a sua história.
✅ Como atendimento: Dizem que ela é reservada e que não aparece em qualquer lugar, mas basta chamar: “Saravá Dona 7 Ossada!”, com respeito, fé e um coração verdadeiro, que ela vem correndo, pois conhece a dor de estar sozinha e sabe o quanto é importante ter alguém para nos ajudar.
Saravá, Dona 7 Ossada! Que a sua humildade, a sua força e o seu amor estejam sempre presentes, acolhendo os corações feridos, consolando os tristes e mostrando ao mundo que mesmo nascendo entre ossos e vivendo com desprezo, podemos nos transformar em luz e em ajuda para todos.