[Os fundamentos de Xangô na Umbanda Tradicional]
[Os fundamentos de Xangô na Umbanda Tradicional]Embora Xangô tenha existido, foi um rei de Oyó, parece que o espírito da realeza criou diversos 'Xangôs' que, no Brasil, deram origem aos seus enredos, as chamadas qualidades. Não temos aqui a pretensão a uma verdade objetiva, posto que estamos falando de uma forma de saber cujo critério euro-americano de verdade não é capaz de abarcar em sua plenitude. A concepção de história na África era muito diferente da nossa concepção atual, fatos e mitos nunca foram coisas separadas e o sobrenatural sempre fez parte das narrativas históricas. Somente após a colonização, que impôs o pensamento europeu em alguns locais, é que a tentativa de criar uma história linear, pretensamente neutra e 'científica' surgiu.
Xangô é o fogo e a terra ao mesmo tempo. É a secura da terra provocada pelo calor do fogo, que a faz endurecer e virar pedra. Sua quentura dá vida a todas as coisas. O calor do desejo é de Xangô, mas o calor das brigas também.
Sua justiça não tem nada a ver com a justiça dos juízes e advogados. Não é legalista nesse sentido. Ele rege o movimento de compensação de todas as coisas. Como na acupuntura, em que o terapeuta procura drenar a energia em excesso e tonificar os pontos em que há escassez, o Rei equilibra tudo ao seu redor. Não é o orixá que castiga aqueles que parecem injustos aos olhos humanos, até porque a justiça que construímos não é universal, absoluta, cósmica, mas uma justiça bastante falha, que privilegia os ricos e poderosos. Se Xangô castigasse ao lado da justiça humana, começaria pelos próprios juízes e advogados que cometem injustiças. Seu poder é sobre a consciência da pessoas, onde mora o verdadeiro 'juiz'. É lá que cada um cria, mesmo que inconscientemente, as condições necessárias para pagar o que deve e receber o que merece.
Xangô é representado por cinco objetos rituais. Um pilão, a ele consagrado, e dentro do qual fica outro de seus símbolos, o edun ará, a pedra de raio. Esse pilão fica em um dos locais de força de Xangô no terreiro. Também é representado pelo machado duplo, chamado oxé, e pelo chocalho chamado xerê. Seu som lembra o barulho da chuva. Os atabaques soam feito o trovão enquanto o orixá é invocado. Não usamos adjá para chamar Xangô. Usamos o xerê e este só pode ser tocado por seus filhos. O quinto símbolo de Xangô é a gamela, recipiente de madeira no qual é colocado o amalá, oferenda do orixá.
Na estrutura física do terreiro Xangô é representado pela cumeeira, que fica pendurada no teto, bem no meio do salão principal. No Candomblé a cumeeira recebe o axé do orixá patrono da roça. Na Umbanda, diferentemente, será sempre a morada de Xangô, que estará no alto compensando os desequilíbrios energéticos do terreiro. Dentro dela vão pedras, ervas e outros itens ligados ao orixá. Ao seu redor alguns terreiros colocam uma estrutura metálica ou metalizada que lembra uma coroa. Outra tradição da Umbanda que se perdeu na noite dos tempos é a consagração dos atabaques. O maior, rum, é sempre consagrado a Xangô. O médio, rumpi, é de Ogum e o menor, o lê, é de Oxóssi. Mas cada atabaque recebe a energia dos três orixás. O couro é de Oxóssi, o corpo de madeira de Xangô e o que prende o couro à madeira, metálico ou não, é de Ogum. Precisamos lembrar que Umbanda não é Candomblé e a tentativa de incorporar fundamentos do Candomblé à Umbanda tem descaracterizado seus próprios fundamentos.
A saudação de Xangô, 'Kaô kabiecilê!' quer dizer 'Venham ver o Rei pisando na terra!'. É mais um chamado da atenção dos súditos à presença de seu rei que propriamente uma saudação ao rei.
Seu dia é quarta-feira. Sua cor é o laranja que, por 'ação de sua quentura', escurece até ficar amarronzado, mas mantendo o tom vibrante. Por isso podemos acender a ele velas marrons e laranjas. O púrpura era usado nos primórdios da Umbanda no Brasil, por lembrar a cor das vestes dos reis europeus.
João Batista era primo de Jesus. Foi um grande místico, provavelmente um essênio. Ele acreditava na purificação do espírito através da imersão do corpo nas águas puras e cristalinas. Muitas correntes esotéricas adotaram João como seu patrono, por ser o grande iniciador nos tempos de Jesus e o iniciador do próprio Jesus. Ele levava às pessoas uma mensagem de fé e de uma vida mais simples e verdadeira. Se referia à Jesus omo o 'Cordeiro de Deus'. O cordeiro e o leão são, ambos, símbolos ligados à Xangô mas nenhum deles representa Xangô diretamente. Eles representam Oxalá, o rei que está acima de Xangô, o Rei dos reis. Por isso dois dos santos associados à energia de Xangô carregam esses animais. João carrega o cordeiro e São Jerônimo carrega o leão. Ambos são mestres espirituais, João e seu misticismo e Jerônimo e sua tradução da bíblia, onde estariam as 'leis de Deus'. Outro santo associado ao orixá é Moisés, que recebeu as tábuas da lei e conduziu o povo hebreu pelo deserto. Na Umbanda Tradicional celebramos Xangô dia 24 de junho, dia de São João Batista. Uma curiosidade é que em Cuba Xangô é associado à Santa Bárbara. Os cubanos parecem ter menos preocupações com essa fixidez de gênero que o Brasil.
Em seus pontos riscados Xangô tem como símbolos o machado, a estrela de seis pontas e a balança da justiça. Os três são diferentes formas de equilibrar dois triângulos iguais.
Às quartas-feiras acendemos uma vela marrom a Xangô pedindo harmonia, equilíbrio e compensação. Podemos pedir justiça a Xangô, diferente do que prega o senso comum, mas desde que estejamos preparados para que a justiça atue em tudo nas nossas vidas. Seremos julgados de acordo com os mesmos critérios que usamos para julgar as pessoas ao nosso redor. Cada um cria a própria justiça a qual será submetido através daquilo que submete as outras pessoas. É literalmente o 'cuspe pra cima que cai na testa de quem cuspiu'.
Zeus, Thor, Jeová, Indra, Chen Wenyu, Xolotl, Tupã e todos os deuses das diversas mitologias que estão associados ao cume das montanhas, aos céus, raios e trovões, são as diferentes formas que essa energia, a que damos o nome Xangô, foi percebida pelos diversos povos ao redor do planeta.
A imagem que usamos para ilustrar esse texto é do ilustrador David Zerca.
O texto é de Baba Fábio de Xangô.